abril 2026: cronicamente cansados
A sociedade do cansaço: slow living, stress crónica, o livro do Nelson Nunes e o ensaio do Byung-Chul Han, romantização da vida no campo e a relação nada saudável com o trabalho.
Acontece sempre da mesma forma: entre vídeos sobre maquilhagem, decoração e livros lá me vão surgindo dois tipos específicos de vídeo pelo TikTok. Um tipo é o das aulas de condução, que me intrigam porque nunca na vida imaginaria aulas de condução gravadas e partilhadas na internet e porque acabam por me lembrar as asneiras que posso ou não andar a fazer pela cidade. A sério, há dias em que me aparecem mais vídeos de aulas de condução do que da paleta de sombras que ando a namorar.
O outro tipo de vídeos é tudo o que seja dentro do modo slow living das influencers. Acho estes vídeos um tanto irritantes, romantizados, desajustados, falsificados. Vejo todos, claro. Sou como a pessoa que vê um desastre acontecer e não consegue desviar o olhar.
Não sei se começou antes, mas comecei a notas isto talvez no fim da pandemia, naquela época em que deixámos as máscaras na maior parte dos contextos. Cottage core trends e uma ideia romantizada da vida no campo, onde a vida era lenta, os dias rendiam mais e tudo era mais fácil, ou algo do género. A base deste idealismo fazia-me sentido. Quem passou o confinamento com acesso a jardins e varandas teve uma clara vantagem, principalmente no caso dos jardins. Mas rapidamente isto escalou para uma idealização da vida no campo baseada nas cabanas e cenários idílicos dos filmes — e do Pinterest. You wouldn’t last an hour in the countryside where they raised me…
Foi assm que comecei a criar uma espécie de jogo de criativdade: cada vez que uma influencer fala de vida no campo e slow living imagino-a a viver numa aldeia recôndita de Portugal, onde os rebanhos de ovelhas e cabras sujam as ruas, onde por vezes cheira a estrume e onde agricultura não é plantar ervas aromáticas na varanda. Experimenta! É uma atividade gira, principalmente com algumas influencers em que dá para imaginar o drama que seria pisar cocó de ovelha com aquele calçado caríssimo de marcas sustentáveis.
Claro que estou aqui neste ambiente de gozo, mas só porque acho mesmo que há um grande irrealismo à volta desta ideia de slow living e, principalmente, de romantização de um tipo de vida que, na verdade, não se planeia ter no campo. No entanto também percebo de onde vem o irrealismo. Cada vez mais vivemos numa sociedade onde stress crónico e burnoutnão largam pé e todos queremos ter uma relação com o trabalho que nos pareçoa boa e saudável. Mas estamos, coletivamente, cada vez mais cansados e no cansaço procuramos refúgios que pensamos que nos vão ajudar a recarregar energias e a sentir que não desperdiçamos vida com tanto trabalho.
Em primeiro lugar: o que é viver no campo?
Na escola, ensinaram-nos a dividir o país em litoral e interior, em campo, praia e cidade, em cidades, vilas e aldeias. Mas, para nós, o que é viver no campo? O que é a ruralidade? Para mim, nascida e criada numa aldeia no campo, no interior super interior de Portugal, foi estranho descobrir que as Azenhas do Mar são uma aldeia. Se puser a minha aldeia ao lado das Azenhas não vejo uma única semelhança.
Por isso, quando alguém fala em viver no campo, eu imagino que eles se imaginam numa destas aldeias tipo as Azenhas e não numa aldeia como a minha. Não vejo essa vida idílica nas aldeias rurais, de interior, de montanha… Nestas pessoas cujos conteúdos deixam implícita uma idealização da vida no campo não consigo não imaginar que são estas aldeias com uma certa vida que imaginam quando fazem um mood board de slow living places.
Mas as aldeias, tal como as pessoas, são bem diferentes de acordo com o lugar onde estão. Só que têm algo em comum: dão a sensação de vida mais calma, maior tranquilidade, menos stress. Se é uma sensação real? Dependerá da pessoa que responder à pergunta.
Ambicionar a calma como resposta à vida caótica
A minha rotina diária pré e pós-trabalho já teve muitas formas: horas passadas em metros e comboios, horas passadas no trânsito da via norte, poucos minutos para fazer uma estrada municipal, horas em estradas nacionais, uma caminhada curta ou uma viagem curta de carro, poucos passos entre o quarto e a secretária.
Os meus dias nunca pareciam ter o mesmo tempo e, se o dia de trabalho fosse complicado, esta deslocação até casa tanto conseguia melhorar como piorar o dia. A viagem nem sempre ajudava, mas o grande problema era a relação com o trabalho. Acho que até ter um burnout nunca tinha pensado tanto na relação pouco saudável que tinha com o trabalho, em como isso era transversal a tantas pessoas que conhecia e em como, mesmo conhecendo os sinais, é tão fácil cairmos em velhos hábitos.
Podemos achar que é algo geracional, mas não concordo. Se pensarmos nisso, crescemos a ver o mesmo na geração anterior. Quanto mais velocidade nos exigem mais as olheiras denunciam que gostávamos de poder abrandar, sem sabermos quando ou se o podemos fazer. Aqui admito que as redes sociais tenham tido impacto: as rotinas idealizadas e editadas que parecem dar a entender que aquelas pessoas têm vidas melhores. Tomam sempre um bom pequeno-almoço, têm sempre dias produtivos no trabalho, têm energia para treinar todos os dias, cozinham todos os dias, lêem todos os dias, escrevem todos os dias. Não parecem estar esgotadas e ter energia limitada. Qual é o segredo? Porque é que elas não estão cansadas e nós estamos?
De onde vem este cansaço?
Quando comecei a ler o livro do Nelson Nunes não precisava propriamente de pensar muito para ter resposta à pergunta do título: De onde vem este cansaço? De forma mais ou menos completa, todos sabemos a resposta. Aquilo que me intrigava era a abordagem que ele iria dar ao tema.
Logo no início, o Nelson começa por falar do avô e da vida que, pensa ele, é um luxo: responder a menos gente, ser menos solicitado, trabalhar de acordo com a natureza e com as próprias necessidades. A certo ponto conclui que «às tantas, todos desejamos aquilo que não temos». Talvez seja isso também.
Depois prossegue e constata que «talvez estejamos, silenciosa e conjuntamente, a perceber que o trabalho não deve ser o centro das nossas vidas. […] Por consequência, talvez a nossa relação com o lazer e o ócio estejam também a transformar-se».
Ao longo de dez capítulos, são-nos apresentados vários exemplos de relações com o trabalho e com o ócio. Alguns são, até, de pessoas cujo trabalho vou acompanhando, como o Fernando Alvim e o David Fonseca, mas, independente da profissão que tenham, o ponto que liga todas as partilhas prende-se com a relação entre trabalho, ócio, stress e, claro, o cansaço.
Curiosamente, foi uma leitura que assumi lenta — é o tipo de livro em que cada capítulo para que pensar e, por isso, acaba por ser uma leitura de muitas linhas sublinhadas, muita meditação e muita comparação. Gostei muito do livro porque não tentou dar uma única resposta à origem do cansaço e explorou vidas completamente diferentes. Talvez lhe faltasse, no entanto, explorar o cansaço noutras zonas do país. Ir mesmo a profissões mais banais no Minho ou numa região longe dos grandes centros urbanos.
Digo isto porque tratamos o cansaço e o burnout como algo que parece quase exclusivo das cidades maiores, mas eu vejo-os bem para lá destas zonas e acho que era um exercício interessante para completar perspetivas.
Onde a relva é mais verde
Às vezes ainda me perguntam se não volto para casa da minha mãe, principalmente quando sabem que agora trabalho remotamente. Vou poupar-te a mais uma declaração de amor à cidade do Porto, mas deixei de me ver a viver na Beira Alta há muitos anos e sempre que tive de voltar foi com consciência de ser algo provisório. Fosse definitivo e não sei onde isso me teria levado. Mas então não queremos todos fugir do caos da cidade e ir morar numa vivenda no campo com jardim e espaços verdes por perto? Aparentemente não. É que o cansaço não é mesmo só cena de cidade, amigos, e há outras coisas que fazem a nossa vida ser o que é.
Entre 2020 e 2021, trabalhei como rececionista e auxiliar numa clínica veterinária em Trancoso. Vivia a menos de 4 quilómetros do local de trabalhar, conseguia poupar muito do que ganhava porque só tinha despesas de alimentação e de combustível, gostava muito das pessoas com quem trabalhava e gostava de fazer festinhas a cães sempre que queria. Não teria, em algum momento, conseguido imaginar-me a ter aquela vida durante anos. Estava ali para ganhar dinheiro para fazer mestrado e essa era, juntamente com o facto de sentir que estava a ajudar, a maior motivação que tinha. De resto, estava sempre cansada, não tinha uma vida equilibrada, não tinha muito mais na rotina além de trabalhar e de levar a Lady a passear. Lia pouco, escrevia pouco, não saía com amigos nem sozinha. Via o sol pôr-se para lá da serra da Estrela e não gostava de imaginar um futuro assim, onde não fazia mais nem queria fazer. Pensei mesmo que seria naquela altura que deixaria de escrever porque já nem me apetecia. Todas as histórias que antes habitavam na minha mente pareciam ter desaparecido. Mas estava no campo. Não é suposto a vida lá ser melhor?
Da mesma forma, também há cansaço quando trabalhamos em casa, por mais estranho que possa parecer a quem idealiza uma vida em que o trabalho é feito a poucos metros da cama (ou na cama?). Porque dificuldades, dias que não correm bem, plataformas de trabalho que só nos complicam a vida não têm impacto apenas se trabalharmos num escritório. A diferença? É muito mais fácil sair da secretária e ir apanhar ar sem termos de responder a perguntas quando estamos em casa, sem dúvida. Mas também acho que se pode criar muito mais facilmente uma relação péssima com o trabalho.
Sei que parece, mas não estou a tentar destruir-te os sonhos; estou só a tentar mostrar que achamos sempre que a relva é mais verde noutro lugar, mas que isso não significa que seja a melhor relva do mundo. Às vezes é só artificial e nós podemos ver o tom de verde mais bonito sem sabermos que nada mais o sustenta.
De onde vem, então, este cansaço?
Adoro redes sociais e plataformas digitais. Adoro a criação de conteúdo, o consumo de conteúdo. Adoro que haja de tudo um pouco na internet e saber precisamente onde tenho de ir para cada coisa que quero ver. Mas não é preciso pensar muito para perceber que todos estes fatores contruibuíram coletivamente para um nível de insatisfação e de comparação nunca antes visto. Inevitavelmente começamos a afastar-nos delas, perdemos paciência para conteúdos que nos parecem cada vez menos possíveis de replicar, não apetece ler ou ver visões limitadas e idealizadas do mundo e até o lifestyle que tanto nos enchia as medidas deixou de caber na lista de coisas que nos apetece ver na internet. Ou não parece real ou não parece atingível. Parece que estamos sempre a falhar, sempre em falta para a vida que devíamos ter. Devíamos dar mais, fazer mais, parar menos. É tudo tão acelerado, imediato, necessário. Se não conseguimos é porque não somos tão bons quanto os outros.
O problema é que este imediatismo não existe só nas redes sociais e parece contaminar tantas áreas da nossa vida. Claro que isso também cansa. Estamos sempre ligados, por isso por que motivo não havíamos de atender aquela chamada de trabalho bem fora do nosso horário?
Às vezes sinto que tudo nos cansa, que nos cansamos de tudo muito rápido. Facilmente podemos passar à frente, deixar de seguir, fazer outro swipe. Todas as esferas da nossa vida se misturam num aglomerado sem pés nem cabelo onde facilmente perdemos o equilíbrio e tudo nos foge do controlo. Acho que isto é mesmo a sociedade do cansaço, como Byung-Chul Han dizer no seu ensaio. E, embora o ensaio não seja particularmente bem articulado, não deixa de ser interessante lê-lo quando diz que o «cansaço da sociedade de produção é um cansaço individual, um cansaço que separa e isola» porque realmente outro dos problemas vem do facto de haver uma visão muito mecânica, quase robótica, em relação ao trabalho e à forma como ainda trabalhamos atualmente. A quantidade de horas semanais que trabalhamos está tão desfasada do tipo de sociedade em que vivemos.
Se calhar a culpa é desse tipo de sociedade. Começámos, coletivamente, a ganhar outras preocupações, outros interesses. O descanso tornou-se prioridade, a vontade de aproveitar as horas que nos sobram para fazer exercício, ter hobbies, alimentar as nossas relações… ao criarmos necessidades que permitem uma vida mais cheia acabámos por notar o grande desequílibrio em que vivemos. Claro que outras gerações não compreenderiam todas as nossas questões. Tinham outras necessidades, outras prioridades. Claro que damos por nós perdidos nesta complicação que é viver entre ambicionar equilíbrio e descobrir que o equilíbrio é, afinal, um jogo onde nem sempre ganhamos, mas sempre abdicamos.
Fora tudo isso, sinto que há um padrão em muitas áreas de trabalho (principalmente nas que conheço melhor) que vão criar frustração e pôr-nos constantemente em conflito. A desorganização, as urgências que em nada implicam um hospital, os problemas técnicos, a falta de recursos… Acredita, um burnout também pode existir com uma quantidade normal de trabalho, só porque o ambiente ou as condições não são as melhores.
Honestamente, estamos rodeados de cansaço. Não sei como é que não estamos mais cansados.
Contrariar tendências — ou aceitar o que não se pode mudar e tentar fazer o melhor com o que se tem
Perto do final do livro, Nelson Nunes lista aquilo que chama vislumbres de soluções, com algumas atitudes que estão ao alcance dos cidadões, das organizações e do poder político. Logo no início, há um conselho que deixa que é a base de tudo o que tenho tentado para ter uma vida mais pacífica: «não se compare aos outros». É difícil, claro, porque tudo nos incita a comparações, mas não é saudável e não sabemos se nos estamos a comparar com algo real ou com algo que achamos ser real e que está muito longe de o ser.
Depois vêm os outros conselhos, como dizer que não, analisar a rotina, ter cuidado com falsas urgências, criar uma rotina de sono, fazer exercício e, entre outros, encontrar um terceiro lugar. Este terceiro lugar vem daquela ideia de que o dia se pode dividir em três partes iguais de oito horas: dormir, trabalhar e o resto da vida, o que nos coloca em lugares diferentes — a casa, o trabalho e o outro. Para quem, como eu, trabalha em casa, já há aqui uma mistura de lugares, que pode não resultar para todos e que exige mesmo disciplina e espaços diferenciados em casa. Mas é sobretudo esta ideia de um espaço para o resto da vida que sinto ser muito necessário. De que é que é feita a nossa vida afinal?
Voltamos, então, aos vídeos de slow living e de rotinas. Será que agora só é cool ter na vida aquilo que se pode performar? Os hobbies analógicos, as casas sempre arrumadas, as rotinas onde tudo cabe? Depois, só depois, ocorre-me que o que existe nas redes é uma versão editada de algo. Nós só podemos dar o nosso melhor para tentar ter uma vida equilibrada, longe do que parece a vida dos outros.
Lugares diferentes dão-nos vidas diferentes e, desconfio, tornam-nos pessoas diferentes. Claro que consigo mais facilmente reencontrar balanço entre os lugares da vida quando tenho uma casa que me permite fazer isso, tenho um trabalho onde posso escolher o lugar a partir do qual trabalho (passo a redundância) e vivo numa cidade de que gosto, com a maior parte dos meus amigos num raio de dez ou menos quilómetros, com vários lugares onde gosto de ir sozinha ou acompanhada, com a possibilidade de fazer refeições equilibradas e algum exercício e com refúgio a 200 quilómetros se quiser e precisar.
Mas também me canso, também passo dias sem pegar num livro, também adormeço às nove da noite em várias noites, também sinto que as frustrações do trabalho podem mudar o meu humor às 8 da manhã e tiram a energia para viver depois das 17h30, também tenho debates internos sobre qual a decisão mais saudável entra ficar em casa a ver o dia passar, sair sozinha, sair acompanhada. E claro que já me perguntei se devia acordar às 6 da manhã para ter slow mornings, se devia começar a colorir livros (sempre colorir, nunca pintar), se devia ir para o pilates, se preciso de ir comprar frutas à frutaria, se estou a sair o suficiente de casa, se estou a sair demasiado de casa, se estou a desligar o suficiente do trabalho, se estou a ser boa profissional, se podia estar a fazer mais pelo meu terceiro lugar, se estou a fazer render o suficiente o tempo que ganho ao trabalhar em casa, se qualquer coisa.
E também acho que é por isto que estamos cansados. São muitos se. Muitos estímulos. Muitas ideias às quais temos ou não de corresponder. E a resposta não está neste texto que levou vários dias a escrever e que escrevi à mão, porque este ano quis voltar a escrever mais à mão para me afastar dos ecrãs ao fim do dia, mas ligo na mesma o computador para ouvir música, assistir a vídeos no Youtube ou séries no streaming.
Chego muitas vezes cansada ao fim do dia e já não me apetece fazer mais nada. Mas acordo às 7h15, faço um treino cardio de 20 minutos e sigo o dia. Não o faria antes, mas agora sinto que preciso e consigo. Mas para mim slow living não é o que vejo nas redes sociais. Não são as conscious brands, os pequenos-almoços bonitos, as morning pages. Para mim a vida pode ser calma porque sei que estou a fazer o melhor possível para que ela dure e eu a possa viver e aproveitar. Mesmo que não tenhamos as rotinas perfeitas, a dieta perfeita, a casa perfeita, o trabalho perfeito. O segredo? Aceitar que há dias em que conseguimos grandes proezas de malabarismo e outros em que até aguentar uma bola no ar é impossível. Faz-se o melhor que se pode, com a certeza de que só parece mais fácil agora porque há um certo pacifismo, já não estou a tentar o tudo ou nada. Honestamente, só quero o saudável.
Mesmo com tudo o que não controlamos, todas as chatices e burocracias de adulto que se metem no caminho, com todos os estímulos, às vezes chego mesmo a achar que a vida dá para tudo. Não de forma igual, não todos os dias, mas dou por mim a sentir que dá para ter aquela vida boa de que o Slow J falava. E até penso que sim, é bem possível lidar com o cansaço… mas nunca será uma tarefa que se consiga sem ter outras coisas na vida para as quais queremos muito voltar.
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Até para a semana,




Pronto, já sei que as minhas páginas do journal du jour (gostei, vou deixar de dizer morning pages 😂🥖😂🥖😂) vão ser a refletir e a analisar o que escreves aqui, e muito bem!
Admito a 100% que idealizo muito uma fase da minha vida onde estarei fora da cidade, no tal “campo” (onde vale tudo menos futebol), embora seja irónico porque, tal como tu, cresci em meio rural e reconheço perfeitamente o que observas. Eu penso nas vaquinhas que teria enquanto respondo a e-mails como se as vaquinhas não precisassem de cuidados, não adoecessem, não precisassem de sistemas de alimentação loucos (que essa ideia de pastarem na relva só funciona mesmo na limiano)… Como se plantar tomates e alfaces não trouxesse pragas e quezílias com coelhos e chuvas… Eu costumo dizer que idealizar um rancho com vaquinhas é muito mais delicioso porque o cheio das vaquinhas não se sente nos sonhos (embora não me faça confusão nenhuma, é o que é 💩).
Por outro lado, sei que é por sonhar com uma vida mais calma que gosto de aproveitar o que tenho agora na cidade. Por ter vivido num lugar onde não havia cinema é que quero ver mais o cartaz. Por saber que quero, um dia, voltar a um lugar onde sei que pouco acontece é que quero aproveitar enquanto estou no epicentro dos programas e do caos. Adoro um bom caos de cidade e, embora deseje o dia em que acordar às 6 da manhã signifique ir meter o gado todo a aproveitar enquanto ainda não há pico de calor, por agora adoro que signifique acordar mesmo cedo para me mover ou para estar sossegadinha no sofá a beber chá (que é, por si só, slow living! só não é estético, ou eu não sei fazer com que seja, talvez).
É curioso que o que sinto é que sonhar com uma vida diferente no futuro faz-me aproveitar o momento de agora. Deliciar-me com a cidade e não me imaginar a viver noutro lugar ou a fazer outras coisas - que é tudo o que qualquer missionário do Viver o Presente ambiciona para os seus discípulos. E se o sonho mudar, em nada estraga o que já está a ser aproveitado no presente ❤️🩹
Sobre o cansaço, vou continuar esta reflexão no meu caderninho, para não tornar o comentário maior que Os Lusíadas 😂 Obrigada por esta reflexão, devias vir cá mais vezes, o substack precisa de ti 😏😏
Eu romantizo a vida no campo, mas acho que é porque passo para a cidade a minha insatisfação com a vida - bem, por isso e porque sinto mesmo saudades de viver perto de espaços verdes.
Mas romantizo ainda mais as profissões que terminam, cujo trabalho não vem tão forçosamente connosco - as que não precisam de disciplina para as separar do tempo livre.
Quero muito seguir o teu exemplo e encontrar alguma serenidade, no meio dos dois empregos, das duas crianças e do muito sono.