a viver nas páginas de setembro
setembro trouxe nove leituras, boas mudanças e muito entusiasmo pelo último trimestre do ano.
Setembro foi um mês cheio — de vida, de comida, de memórias boas. Tenho sempre receio de dizer que algo corre bem. Chamem-me supersticiosa, exagerada, o que for, mas realmente acho que não sei encarar totalmente a vida quando sinto que me corre bem. Mas setembro realmente foi bom para mim e trouxe-me algo que esperava há algum tempo. Torcia para que acontecesse em setembro e setembro cumpriu.
A expectativa de leituras para setembro era…
Crime na Quinta das Lágrimas, de Lourenço Seruya
Expiration Dates, de Rebecca Serle
O Amor Nos Tempos de Cólera, de Gabriel García Márquez
Começados anteriormente:
Inferno, de Dan Brown
Marketing Digital: O Guia Completo, de Marco Gouveia
Terra Ferida, de Clare Leslie Hall
O que acabei por ler realmente em setembro
Terra Ferida, de Clare Leslie Hall
Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves
Inferno, de Dan Brown
Crime na Quinta das Lágrimas, de Lourenço Seruya
Notas sobre o Luto, de Chimamanda Ngozie Adichie
A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera
Expiration Dates, de Rebecca Serle
Marketing Digital: O Guia Completo, de Marco Gouveia
Cai a Noite em Caracas, de Karina Sainz Borgo
Setembro começou ainda com uma semana de Feira do Livro do Porto pela frente e, com ela, a gravação de um podcastcom o Rui Reininho como convidado, o concerto dos NAPA, a sessão de autógrafos do Hugo Gonçalves e o concerto do Sérgio Godinho. Declarei a Feira do Livro deste ano um sucesso! Nesta primeira semana, além de aproveitar o melhor possível estes dias de Feira, pude festejar com os meus amigos uma proposta de trabalho nova, com abraços, sushi e francesinha. Nestes primeiros dias, fui-me perdendo nas páginas de Terra Ferida, que ficou inesperadamente disponível na Biblioled enquanto lia Inferno, e tive uma súbita vontade de reler Filho da Mãe ainda antes de terminar o livro do Dan Brown.
Terra Ferida, de Clare Leslie Hall
Sei que não devemos julgar um livro pela capa, mas quando olhei para a capa de Terra Ferida pensei logo que queria ler este livro. Reservei-o na Biblioled, com prazo de espera de meses — ficaria disponível em janeiro, embora eu contasse que chegasse para aí em novembro. No fim de agosto ficou disponível e com a atmosfera meio outonal que estava a invadir o Porto parti para este drama familiar.
Em Terra Ferida conhecemos Beth e o marido, Frank, cujo casamento feliz parece esconder um passado triste. Quando Jimmy, cunhado de Beth, mata um cão que invade a quinta onde vivem, toda a trajetória de Beth e do seu casamento é alterada: o cão pertence a Leo, filho de Gabriel Wolfe, o amor de adolescência de Beth. Este encontro com o passado obriga Beth a reviver toda a história, mas também a confrontar-se novamente com a morte do filho, que aconteceu anos antes.
Depois de umas semanas irregulares de leitura, foi bom sentir esta vontade de regressar a uma história diariamente. A escrita é fluída e o mistério de compreender o que terá acontecido exatamente mantém-nos agarrados ao livro. Confesso que a parte final já não me cativou tanto e achei algumas cenas um bocadinho rebuscadas e, honestamente, novelescas. No entanto, gostei muito de ver esta ideia de laços familiares e de várias versões de amor — e o quanto elas têm impacto em nós.
Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves
Quase a fazer quarenta anos, Hugo Gonçalves recebe o testamento do avô num saco de plástico e este momento com a avó dá o mote para regressar a março de 1985, na tarde em que, ao regressar da escola primária, soube que a mãe tinha morrido.
Durante o tempo de escrita, Hugo procura pessoas e lugares, em busca de memórias perdidas ou esquecidas. Nesta investigação pessoal, Hugo volta à infância para tentar fazer sentido daqueles tempos, mas também vai percorrendo todas as suas histórias e os lugares por onde passou, descobrindo neles uma ligação visceral ao menino que foi. Entre regressar ao Algarve da infância e descobrir o caos em Nova Iorque, Hugo Gonçalves partilha, neste livro, um relato muito íntimo sobre luto, mas também sobre família e crescimento. A ausência da mãe torna-se também uma presença incontornável.
De uma forma simples, Filho da Mãe entrou automaticamente para o meu top de melhores livros lidos este ano. A reflexão sobre quem nos tornamos na ausência de uma mãe, mas também no quanto a ausência se torna uma presença e, acima de tudo, na maneira como a morte é contada a uma criança e o impacto que isso terá no adulto que ela se tornará. Filho da Mãe traz uma carga emocional associada a uma carga reflexiva que vai muito além do momento da vida em que é escrito. Quem era aquela mãe antes de ser mãe? Como terá vivido aqueles anos com os filhos sabendo que podia morrer? Como é que aquele luto moldou a infância, a adolescência e até a vida adulta? Hugo Gonçalves conduz-nos numa viagem em que tenta também encontrar uma parte de si que julga ter deixado de existir com a mãe e oferece-nos um livro tão bonito, visceral e emocional que não há como não lhe ficar agradecida pela generosidade de partilhar aquele lado tão íntimo com os leitores.
Inferno, de Dan Brown
Tenho levado a saga do Robert Langdon, do Dan Brown, muito na desportiva e a prova disso é que passam anos entre leituras e eu não me apresso. Tinha lido The Lost Symbol em 2020 e, curiosamente, até devia estar interessada em não demorar anos a ler o livro seguinte porque comprei Inferno ainda antes de começar o anterior. No entanto passaram mais de cinco anos até pegar em Inferno.
Acho que foi uma boa decisão não ter lido Inferno quando o comprei — estávamos no início da pandemia e facilmente teria virado conspiracionista à pala deste livro. Em Inferno, o quarto livro da saga, Robert Langdon acorda num quarto de hospital em Itália sem se lembrar de sequer ter viajado para aquele país e que objeto estranho é aquele que tem no bolso do casaco.
Não sei se foi por o ter lido numa época particularmente preenchida, em que não conseguia ler muito diariamente, mas achei que este livro não teve o ritmo dos anteriores e que não ia tão direto ao ponto. Tenho a certeza de que daqui a uns anos voltarei para o quinto volume (talvez menos anos), porque estes mistérios do Dan Brown me cativam pela forma como conseguem juntar História, Arte, Geografia numa boa história.
Preparar para mudar
Entreguei a carta de demissão no dia 9, depois de 14 meses a trabalhar como assistente de marketing (que faz tudo no departamento porque na verdade esteve mais de metade desse tempo a trabalhar sozinha). Este passo para uma mudança profissional deu o mote para todo o mês: as conversas, as saídas para festejar, os mimos recebidos. Setembro pareceu viver em modo festa, até quando chegou a carta de confirmação de mudança de morada para o Porto festejei. Fui lendo, aos poucos, o Marketing Digital, mas por estes dias foquei-me no livro do Lourenço Seruya, do meu desafio de leitura com a Andreia, levei o livro da Chimamanda comigo no dia em que fui com o carro ao mecânico e acabei por me deixar encantar por esta insustentável leveza do livro do Kundera.
Crime na Quinta das Lágrimas, de Lourenço Seruya
Quando escolhemos os autores do nosso desafio de 2025, tanto eu como a Andreia estávamos confiantes de que escolher os policiais do Lourenço Seruya ia ser uma aposta ganha: tínhamos quatro livros, uma oportunidade de notar evolução, mas também de nos envolvermos na história do inspetor Bruno Saraiva. Pois, bem, digamos que ao terceiro livro tenho só vontade de pregar um par de estalos ao Bruno Saraiva e já perdi qualquer esperança na saga.
Neste terceiro volume, Bruno mudou-se para Coimbra e tem de investigar o homícidio de uma mulher na Quinta das Lágrimas. Esta mulher devia casar nesse dia e a Quinta estava apenas aberta para os convidados. Até aqui tudo bem, mas o desenrolar da história não me cativou, a escrita não é envolvente e juro que revirei os olhos em várias situações, com diálogos pouco credíveis, cenas que pareciam cortadas a meio e outras que pareciam não acabarras que par. A premissa é ótima, daria um ótimo policial, e o livro até se lê com alguma rapidez, mas então como é que não há uma boa edição para ajudar a história a elevar-se? Sinto que as ideias do autor se perdem também por falta de um bom trabalho de edição. Vou para o quarto livro (o último do desafio) um bocadinho desanimada e desmotivada…
Notas sobre o Luto, de Chimamanda Ngozi Adichie
Uma das minhas melhores decisões na Feira do Livro do Porto deste ano foi ter um orçamento alargado, que me permitia ter margem de manobra caso quisesse improvisar compras. Tinha uma lista de livros que queria comprar, deitei o olho a livros do dia e ainda consegui comprar outros que não tinha inicialmente previsto. Um desses livros foi Notas sobre o Luto, da Chimamanda Ngozi Adichie.
Em junho de 2020, o pai de Chimamanda, James Nwoye Adichie, morreu subitamente. Numa jornada de luto em plena pandemia, Chimamanda partilha, neste pequeno livro, o impacto desta morte, partilhando pormenores da vida do pai até aos últimos dias, quando, em confinamento, ia mantendo contacto com a família em chamadas de vídeo.
É um livro tão bonito quanto triste. Aproveitando algo que escrevi quando li o livro da Tânia Ganho, acho que será certamente interpretado de formas muito diferentes de acordo com as vivências de cada um — poderá ser um abraço extra para quem vive o mesmo luto, poderá ser um nó na garganta para quem sabe que um dia viverá este luto ou poderá ser um objeto de afastamento sentimental para quem assim o conseguir interpretar. Para mim foi, acima de tudo, a tentativa de colocar em palavras um turbilhão de sentimentos numa altura em que tudo parece ficar perdido.
A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera
De há seis anos para cá, ganhei o hábito de me oferecer livros no meu aniversário. Aproveito os habituais vales de aniversário que as lojas oferecem e compro sempre pelo menos um livro. A Insustentável Leveza do Ser foi o livro que me ofereci em 2020. Claro que fui adiando a leitura, como dá para perceber, mas, agora que ando mais empenhada em limpara lista de livros por ler, finalmente chegou a vez dele.
Há livros aos quais já chegamos com uma série de expectativas ou ideias soltas e este é um deles. Publicado originalmente em 1984, A Insustentável Leveza do Ser é já considerado um clássico contemporâneo, mas aquilo que me fez ir adiando a leitura foi, na verdade, a noção de que este livro gira à volta de reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo… o que é curioso, dado que tanto da experiência humana se mantém atual em 2025.
Gostei particularmente dos relatos da sociedade de Praga em plena Guerra Fria. Também gostei de ler as reflexões filosóficas e existenciais sobre o amor, a liberdade, o destino e o peso das escolhas, embora não tenha sido o que mais me prendeu à leitura.
A calma depois da festa
Setembro deu para festejar entre comida em várias ocasiões: comemos sushi no dia em que soube que ia receber a proposta de trabalho, comemos francesinha no último dia de Feira do Livro, festejámos no Il Fornaio com pappardelle funghi e burrata, analisámos o futuro com pizza e tiramisu no NoSolo, tive uma tábua de queijos e enchidos perfeita e tiramisu no meu lanche de despedida e ainda deu para terminar com um almoço com uma francesinha. Honestamente, não é só a mente que precisa de pausa neste final de mês: o sistema digestivo também precisa de respirar.
Com o outono a chegar ainda li dois dos livros que tinha na TBR de verão, terminei o livro do Marco Gouveia e ainda comecei (mas não acabei) O Amor nos Tempos de Cólera.
Expiration Dates, de Rebecca Serle
Há algum tempo que não pegava num romance deste tipo, mas tendo alguns por ler decidi voltar a Rebecca Serle, cujos romances têm sempre um belo toque de realismo mágico. Em Expiration Dates conhecemos Daphne, uma mulher que sempre que conhece um homem recebe um pedaço de papel com o nome dele e um número — o número que determina exatamente quanto tempo estarão juntos, seja uma noite, três meses ou dois anos. Até que Daphne tem um encontros às cegas com Jake e o papel não tem qualquer número. Será com Jake que ela vai partilhar a vida? E isso significa partilhar o seu segredo?
A ideia da história é interessante, principalmente por permitir pensar sobre como encaramos uma relação ao sabermos exatamente quanto tempo vamos passar nela. Ainda assim, foi o livro da autora de que menos gostei. Eu sei que o problema é eu torcer sempre para que a história não se desenrole como eu acho que vai desenrolar e para que não seja tão previsível quanto parece ser, mas é mesmo preciso ser tão previsível? Além disso, esta questão do realismo mágico não é, de todo, o segredo que Daphne tem receio de partilhar — mas cria um certo absurdo ela ter receio de partilhar um segredo como o que ela guarda.
Acho que serve para passar o tempo, mas não é um tempo assim tão agradável.
Marketing Digital: O Guia Completo, de Marco Gouveia
Havemos de falar sobre esta minha necessidade de comprar demasiados livros técnicos (serão mesmo demasiados?), mas, para já, começo por este Marketing Digital, escrito pelo Marco Gouveia, também conhecido como mestre do SEO. Neste guia, o Marco apresenta-nos, de forma resumida, os principais pontos em que o marketing digital toca, das redes sociais aos motores de busca. É um guia completo, sim, mas também introdutório. Acredito que sirva mais a quem precisa de ter noções básicas primeiro, mas é também um bom resumo desta vertente do marketing.
Cai a Noite em Caracas, de Karina Sainz Borgo
Em novembro do ano passado, ofereci-me o primeiro livro da Karina Sainz Borgo (comecei por O Terceiro País) e, tendo-o incluído na TBR de verão, usei os primeiros dias de outono para ler esta ficção histórica passada em Caracas.
Cai a Noite em Caracas é narrado por Adelaida Falcón, uma mulher que vê o seu mundo ruir à medida que o regime autoritário transforma a Venezuela num lugar de miséria, violência e medo. Depois da morte da mãe e da invasão e ocupação da sua casa por um grupo de milicianas, Adelaida é obrigada a reinventar-se, questionando a sua identidade e humanidade para sobreviver num país em colapso.
Gostei muito de ler a Karina Sainz Borgo neste livro, numa história muito atual, e reforcei a sensação de que esta será uma autora que irei querer acompanhar sempre.
TBR para outubro
10 Minutos e 38 Segundos Neste Mundo Estranho, de Elif Shafak
A Importância do Pequeno-almoço, de Francisca Camelo
Do Outro Lado, de Mafalda Santos
Começados anteriormente:
A Origem dos Dias, de Miguel Dalte
O Amor Nos Tempos de Cólera, de Gabriel García Márquez
Outras páginas para explorar em outubro
Uma atividade
Sei que falei do pumpkin spice em setembro, mas ainda não fui à versão quente e estou a precisar de a conjugar com uma manhã de escrita: passar a manhã a escrever no Starbucks, com pumpkin spice latte e uma boa playlist outonal (ou The Life of a Showgirl, veremos).
Uma compra
Com a mudança de trabalho, vou passar a poder trabalhar de casa e, por isso, vou precisar de montar um mini-escritório em casa. Para já, a prioridade é uma cadeira, porque as cadeiras que temos na sala não são confortáveis. Depois, a ideia é comprar uma secretária também — embora seja algo que, admito, me está a custar assimilar porque começo a imaginar que terei de mudar de casa e terei muitas coisas para levar (olá, sofrimento por antecipação). Ideias à parte, o escritório de casa será algo que construirei aos poucos, de acordo com o que conseguir gerir no orçamento mensal.
Um concerto
Os GNR celebram 45 anos de carreira com Operação STOP, uma série de concertos onde atuarão nos Coliseus do Porto e de Lisboa. No Porto, os concertos são a 18 e 19 de outubro. Em Lisboa, o Coliseu recebe a banda nos dias 6 e 7 de novembro.
Bom mês,







Venho de ler dois livros da Chimamanda Adichie (Americanah e The Thing Around Your Neck) e está a tornar-se uma das minhas autoras preferidas. A prosa dela é muito evocativa da do Ta-Nehisi Coates, que é um elogio como poucos que se podem dar. Vou tentar ler mais algumas coisas dela, incluindo este de não-ficcão que me deste agora a descobrir. :)