a viver nas páginas de agosto
as páginas que preencheram este agosto triste e caótico...
Sinto-me traída por agosto. Comecei a edição de julho destas páginas a queixar-me de que julho tinha sido um mês que não tinha correspondido à sensação habitual de que os dias dão para tudo e agosto deve ter encarado isso como um desafio porque este foi o agosto menos agosto de que me lembro — e eu trabalhei numa clínica veterinária do interior do país em agosto. Agosto costuma ser aquele mês em que até a trabalhar dá para descansar já que tudo abranda e este ano nada abrandou. Nunca mais me iludem nesta de não tirar férias em agosto porque vai ser bom para organizar trabalho e para orientar os meses seguintes. Como é óbvio, com isto quero dizer também que agosto foi um mês em que as leituras até começaram bem, mas depois…
Agosto começou com uma TBR composta…
Na TBR:
Conta-me, Escuridão, de Mafalda Santos
Inferno, de Dan Brown
Martyr!, de Kaveh Akbar
O Amor Nos Tempos de Cólera, de Gabriel García Márquez
Água Viva, de Clarice Lispector
Da TBR de julho:
Pés de Barro, de Nuno Duarte
The Wedding People, de Alison Espach
Tudo Pode Ser Roubado, de Giovana Madalosso
Começados em julho:
Atmosphere, de Taylor Jenkins Reid
Vai Correr Tudo Mal, de Joana Marques
Mas o que acabei por ler foi…
Conta-me, Escuridão, de Mafalda Santos
Água Viva, de Clarice Lispector
The Wedding People, de Alison Espach
Soñetos, de Rui Reininho
Constelação, de Sónia Balacó
Outonecer, de Júlio Machado Vaz
Tudo Pode Ser Roubado, de Giovana Madalosso
Vai Correr Tudo Mal, da Joana Marques
O que é uma lista composta… não tivesse eu lido os primeiros sete na primeira quinzena e tivesse passado a segunda quinzena a tentar avançar em calhamaços e em livros já começados, sem grande sucesso… Realmente, o primeiro fim-de-semana do mês enganou-me, porque despachei dois livros e senti que ia ser um mês incrível em leituras.
Conta-me, Escuridão, de Mafalda Santos
Eis-nos de volta à obra da Mafalda Santos, uma das autoras escolhidas para o desafio de autores que tenho com a Andreia. Em agosto, calhou-nos ler o primeiro livro da autora, Conta-me Escuridão, uma coletânea de oito contos de terror pensada em parceria com o ilustrador David Benasulin. A premissa partia sempre de quadros escolhidos por Benasulin que serviam de inspiração para o conto que Mafalda escreveria e a ilustração que o próprio faria.
Até ao momento, este é o livro da Mafalda de que menos gostei. Passei pelos contos sem realmente ter vontade de me demorar, apesar de reconhecer que a Mafalda Santos tem um dom para o sobrenatural — na verdade, senti mais os contos como algo sobrenatural do que como terror —, nota-se que este é um livro resultante de um exercício criativo livre, o que leva a alguns contos que parecem não estar tão bem pensados ou estruturados.
Água Viva, de Clarice Lispector
No fundo, acho que consigo referir-me à minha estreia na obra de Clarice Lispector com duas palavras apenas: não sei. Água Viva é narrado por uma mulher que, num longa carta em jeito de fluxo de consciência, vai divagando sobre a vida, a arte e a sua criação. E, no fundo, não sei.
Não sei como referir-me ao que li, não sei o que percebi, não sei o que me faltou perceber, não sei. Acredito que voltarei à obra da Clarice, mas sempre reduzida à minha insignificância: é bem possível que não perceba o que li e está tudo bem.
The Wedding People, de Alison Espach
Wedding People foi-me aparecendo no TikTok e a ideia com que fiquei foi a de que seria uma boa comédia romântica, com uma dose decente de previsibilidade e humor, ideal para uma leitura descontraída de verão. Problema: faltou-me a informação sobre um dos temas centrais. Assim que soube como a história começava soube que isto ia descambar facilmente.
Neste livro, conhecemos Phoebe, que vai para o hotel que designa como o seu lugar feliz sem bagagem, com um vestido bonito e sapatos pouco confortáveis. Todos assumem que é convidada do casamento que ali vai acontecer, mas, na verdade, não faz parte da lista de convidados. Quando Phoebe conhece Lila, a noiva, rapidamente esta percebe que a sua festa de casamento pode vir a ser arruinada por Phoebe. Ainda assim, será que poderão ser amigas? Será mais o que as junta ou o que as separa?
Acho que alternar entre ebook e audiobook melhorou a minha experiência e, mesmo assim, achei o livro previsível, demasiado estereotipado sem qualquer necessidade e com falhas graves na forma como decide explorar todos os temas sérios. Claro que se lê bem, como todos os livros deste género, mas se só tivesse lido e não tivesse tido a boa narração do audiobook acho que não teria gostado de nenhuma parte da experiência de leitura. Definitivamente, é daqueles livros em que as coisas até parecem encarrilhar, mas a certo ponto perdem-nos por completo.
Agosto trouxe tristeza…
No sábado em que a minha me ligou a dizer que está a chegar um incêndio completamente descontrolado a Fiães começou a inquietude de saber que não ia conseguir descansar até saber que tudo tinha passado. Ver o fogo alastrar entre diretos da CMTV e chamadas de vídeo com a minha mãe foi ansiogénico e acredita que só não foi pior porque me entretive com poesia (inesperadamente) e o A. me veio salvar de mim própria.
Soñetos, de Rui Reininho
Não sei como demorei tanto a comprar esta coletânea de letras de músicas do Rui Reininho, mas a minha mãe não me deserdou e, por isso, acho que ainda fui a tempo. Este ano, em jeito de celebração pelos 70 anos do Reininho, a Imprensa Nacional preparou uma edição muito bonita com todas as letras escritas por Reininho para os GNR, mas também para outros projetos. É um livro que se lê a trautear e que pode não trazer novidade, mas traz familiaridade. Além da edição bonita e cuidada, acho que é também o tipo de livro obrigatório na coleção dos fãs deste artista.
Constelação, de Sónia Balacó
Há algum tempo que tinha curiosidade em ler a poesia da Sónia Balacó, mas Constelação esteve esgotado durante algum tempo e, depois, acabei por ir esperando. No entanto, numa visita à FNAC, acabei por o trazer quase por impulso. Constelação talvez fique marcado na minha vida como o livro que me acompanhou no dia em que a minha terra ardeu. Entre chamadas com a minha mãe e o acompanhamento noticioso, ia lendo um ou dois poemas, torcendo para a companhia da Sónia ser suficiente para me aguentar até chegar o meu reforço emocional.
Como primeiro livro, Constelação consegue apresentar-nos a escrita da Sónia, entre poesia e alguma prosa, brincando com a língua portuguesa e não só, criando vários pontos que, ao unirem-se, hão de criar a imagem que o livro reflete, a da busca pela identidade. Gostei muito de o ler, certa de que quero ler o segundo livro da autora em breve.
Outonecer, de Júlio Machado Vaz
O Júlio Machado Vaz é, sem saber, uma das minhas melhores companhias de domingo, juntamente com a Inês Meneses. Gosto muito de o ouvir e há muito que queria lê-lo. Ia esperar para comprar Outonecer, o livro mais recente, mas na apresentação do livro, em julho, percebi que o livro teria de vir cá para casa mais cedo do que o esperado. Em Outonecer, Júlio Machado Vaz reflete sobre o envelhecimento em todas as suas vertentes.
É um livro muito instrospetivo, com uma escrita fluída, numa partilha generosa e simples sobre os receios de quem envelhece, as memórias que queremos guardar e a visão do futuro quando parece que nos sobra mais passado do que futuro. Gostei muito, muito, muito deste livro.
Num mês tão triste, os pontos de luz…
Apesar de tudo, agosto trouxe três concertos e o regresso da Feira do Livro do Porto. Também foi trazendo momentos de escrita e trouxe principalmente a possibilidade de boas notícias para este final de ano. Torço por elas, mas torço sobretudo para que estes meses de leituras irregulares sejam exceção e não a regra que parecem estar a ser este ano.
Tudo Pode Ser Roubado, de Giovana Madalosso
Foi uma das minhas compras da Feira do Livro do Porto do ano passado e, depois de ter tentado ler em setembro do ano passado, decidi que tinha de o ler antes da nova edição. Tudo Pode Ser Roubado é narrado por uma empregada de mesa de um restaurante de São Paulo que aproveita encontros casuais para roubar peças de luxo que depois vende em segunda mão. A parte complicada começa quando é contactada para um roubo irrecusável: o da primeira edição de “O Guarani”.
Não conhecia a escrita da Giovana e até gostei, mas esperava gostar mais. O ritmo do livro é inconstante e o final demasiado apressado, o que não abona a favor da inconstância. Acho que voltarei à escrita da autora, porque gostei do humor e da crítica social, mas para já não tenho pressa em fazê-lo.
Vai Correr Tudo Mal, de Joana Marques
Tinha este livro há demasiado tempo. A sério. Tinha este livro por ler desde 2019, não sei bem porquê. Entretanto coloquei-o na minha lista para este verão e acabei por o ter como companhia durante todo o mês. Ia lendo um bocadinho de manhã ou ao fim do dia e lá fui navegando pelos capítulos em que Joana Marques vai abordando o fabuloso mundo da auto-ajuda. Gostei da leitura, embora reconheça sempre que ler um humorista não é sempre uma atividade que provoque tantas gargalhadas como vê-lo ou ouvi-lo. Tendo em conta que vi, no ano passado, Desconfia, que acaba por ir ao encontro temático deste livro, senti que foi um bom fechar de capítulo.
TBR para setembro
Crime na Quinta das Lágrimas, de Lourenço Seruya
Expiration Dates, de Rebecca Serle
O Amor Nos Tempos de Cólera, de Gabriel García Márquez
Começados anteriormente:
Inferno, de Dan Brown
Marketing Digital: O Guia Completo, de Marco Gouveia
Terra Ferida, de Clare Leslie Hall
Outras páginas para explorar em setembro…
Uma atividade
Já fui à versão fria, mas estou ansiosa por uma tarde de escrita no Starbucks acompanha de Pumpkin Spice Latte. Mais para o meio do outono é possível que me apeteçam outras coisas com abóbora, mas, para já, para começar a entrar na onda outonal, só quero mesmo ir escrever com o pumpkin spice.
Um essencial
Sempre que muda a estação do ano eu mudo a escova de dentes e a esponja do banho. É a atividade mais rotineira de sempre para mim, mas também é aquela que, sempre que partilho, parece ajudar alguém a organizar-se.
Bom mês,







Quando vi nas notícias que o incêndio estava em Trancoso, pensei logo em ti. Ainda bem que não tiveram danos directos, apesar da tristeza que é ver a nossa terra a arder - embora seja algo que eu só consigo empatizar com alguma distância, visto ser de uma cidade litoral e nunca ter passado por isso.
Clarice Lispector é sempre um bico de obra. Li A Paixão Segundo G.H. quando tinha uns 14/15 anos porque a internet toda adorava a Clarice, e fiquei como tu... Não sei, não percebi, não entendi ahahah Confesso até que tenho algum receio de a ler novamente, ainda que agora seja adulta, porque não sei se vou gostar e não queria esse desgosto.
Obrigada pelo lembrete da escova de dentes, vou pôr na lista para o outono, também. Mas não te vou dizer há quanto tempo é que já a tenho, que me envergonha 😬😬