261. macondo
Devia ter-lhe chamado “Crónica de uma referência anunciada” ou algo do género, mas escrevi sobre o mestre García Márquez.

Li Gabriel García Márquez pela primeira vez aos 17 anos e ainda hoje não consigo falar sobre Crónica de uma Morte Anunciada sem me irritar com as atitudes das personagens da mesma forma como me irritei naquela altura. Voltei a um comprar um exemplar deste livro, depois de ter emprestado dois exemplares e não me terem sido devolvidos, e sei que o vou reler em breve porque é um daqueles livros aos quais quero voltar constantemente. Desde aí, comecei a dizer que García Márquez era o meu autor preferido. Honestamente, é arriscado — não faças isto em casa! Não digas que um autor do qual leste apenas um livro é o teu preferido. Sabe-se lá se ele não te vai desiludir a seguir. É melhor teu cautela.
Obviamente eu estava inebriada pelo facto de estar a começar a ler outros géneros e outros autores e decidi que, para aquele momento, García Márquez seria o meu autor preferido. Treze livros lidos depois, posso dizer que a Sofia adolescente sabia qualquer coisa, porque García Márquez ficou mesmo a ser o meu autor preferido. Comecei a explorar a obra dele com muita calma, mas nos últimos seis anos tornei-me mais regular e o meu objetivo do momento é chegar ao fim do ano com dezasseis livros lidos (o total de livros do autor que tenho) e avançar pelos restantes, que não tenho ainda, de forma a seguir outro objetivo: ter lido toda a bibliografia disponível em português até fazer 35 anos.
Esta semana terminei então o décimo terceiro livro do autor, A Hora Má: O Veneno da Madrugada, que tinha comprado há uns cinco anos. A Hora Má foi publicado em 1962, um dos primeiros livros do Gabo, e é um livro que levanta alguma discussão crítica. Não vou escrever-te aqui um resumo nem uma opinião, isso fica para outros lugares e outras ocasiões, mas queria falar-te de algo em que dei por mim a pensar enquanto lia este livro.
A sensação que tenho com o Gabo é a de que os seus melhores livros são os que me apaixonam. Crónica de uma Morte Anunciada, Cem Anos de Solidão, O Amor nos Tempos de Cólera. São aqueles livros que têm todo o meu coração, que entram num grupo restrito de favoritos da vida, que me arrebatam por completo, que me emocionam só de falar deles. São os livros que atestam que este é mesmo o meu autor preferido.
Mas aqueles livros em que noto mais fragilidades são aqueles em que melhor me apercebo da genialidade que vivia na mente deste homem. A Horá Má, Vemo-nos em Agosto, Memória das Minhas Putas Tristes. Não preciso de que estes livros sejam perfeitos e estão longe de o ser, mas há subtilezas nas escrita e nas personagens que me marcam de uma forma completamente diferente. Não são os livros que eu recomendaria para quem nunca leu o autor, mas são os livros que me dizem que este homem é um dos melhores de sempre, que há algo para lá do trabalho que muda tudo na escrita.
Cem Anos de Solidão só foi publicado em 1967. Nele ficamos a conhecer Macondo, terra imaginada, inspirada em Aracataca, que se viria a tornar a aldeia fictícia mais conhecida da literatura sul-americana. A família Buendía é explorada até ao mais ínfimo pormenor da sua árvore genealógica nesse livro. Mas é em 1955, em A Revoada, que Macondo surge pela primeira vez. Doze anos antes. Em A Hora Má volta a surgir.
Cem Anos de Solidão foi um livro difícil de escrever. Começou por se chamar A Casa e era um livro ao qual Gabo estava sempre a voltar porque a história não o largava, mas também porque era preciso esperar pelo momento certo para a conseguir escrever. As histórias podem chegar-nos facilmente, mas muitas delas precisam do momento certo para serem escritas. Não as escrevemos quando queremos, escrevemos quando podemos finalmente escrevê-las. No entanto os pormenores destas histórias andam connosco, invadem-nos e invadem outras histórias. Macondo surge em 1955, sem que ainda fosse possível adivinhar a importância que teria no futuro.
É muito fácil colocarmos estes escritores num patamar inalcançável, dada a sua genialidade. Pai do realismo mágico, jornalista, Prémio Nobel da Literatura. Mas escritor como a gente, que também demorou vários anos a conseguir desenvolver da forma que queria a história que sabia que queria contar. Escritor como a gente, que foi colocando pistas sobre a aldeia que habitava na sua mente em tudo quanto podia. Escritor como a gente, que nem sempre desenvolveu os seus livros como queria e que, por isso, não escondia os filhos preferidos e os filhos renegados.
Ao longo da vida, acho que vamos buscar as nossas referências literárias a vários lugares. Teremos sempre as referências dentro do género que escrevemos, claro, mas acho que as referências que mais vão marcar-nos e marcar a nossa escrita estão fora dos géneros que escrevemos habitualmente. Sinto isso com García Márquez. Não pretendo escrever realismo mágico, o jornalismo claramente não vai voltar para a minha vida, mas é dele que vem uma grande inspiração e referência para a minha escrita. Aprendo muito com estas subtilezas, com esta forma de contar histórias.
E sempre que vejo Macondo noutra história tenho vontade de dar uns gritinhos e sacudir as pernas, qual criança entusiasmada, porque me lembro de que a história que ele mais queria escrever não foi a história que escreveu mais facilmente e, mesmo assim, nunca desistiu dela, nunca desistiu d’A Casa, nunca desistiu de Macondo. E isto é, talvez, a maior lição que García Márquez pode ter para nos dar: nunca desistir de Macondo. Não desistiremos de Macondo.
Esta semana no daylight
Andei numa luta interna sobre como ia abordar as publicações de fim de mês tendo em conta que queria passar os favoritos para o Substack, mas não queria deixar de assinalar cada mês no blog. Acabei por chegar a um acordo comigo e a deixar que houvesse uma forma diferente de abordar o mês sem ser repetitiva. Foi assim que comecei a apontar pequenas notas diariamente. Esta semana publiquei as notas de janeiro, um resumo de algumas coisas que me passaram pela cabeça ao longo do mês.
Não contava escrever muito sobre Factfulness, um dos livros de janeiro, mas dei por mim entusiasmada e, por isso, deixei-me ir e não quis editar-me. No final da semana havemos de falar sobre todas as leituras do mês, mas a opinião sobre este livro de Hans Rosling já está no blog.
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Até para a semana,


