253. a música que foi colo
25 anos do Hybrid Theory dos Linkin Park, fazer as pazes com o luto e seguir em frente.
Ponderei muito se devia colocar em palavras todos estes pensamentos que me têm vindo à cabeça nos últimos meses em relação aos Linkin Park. Quase tinha decidido que o melhor para todos — eu e a minha paz de espírito — seria não os fazer, mas depois veio o 25.º aniversário de Hybrid Theory, o primeiro álbum da banda, e seria injusto se não assinalasse um dos álbuns da minha vida numa data tão bonita. Escrevi sobre o álbum em 2017, poucos meses após a morte do Chester, certa de que ficava muito por dizer. Hoje não tenho a certeza.
Encontrei os Linkin Park na altura em que mais precisava daquela música. A vida entre 2006 e 2007 foi particularmente dura e não sei se haveria quem conseguisse compreender aquilo que eu não sabia explicar, mas a voz do Chester conseguia. O Hybrid Theory, o Meteora e o Minutes to Midnight foram, de certa forma, formadores para mim. Era neles que encontrava o refúgio necessário quando precisava de alguém que me percebesse sem eu ter de me explicar. Não tenho como falar dos álbuns da minha vida sem incluir o Hybrid Theory.
Editado a 24 de outubro de 2000, o primeiro álbum dos Linkin Park surge depois de quatro anos de banda — com algumas identidades diferentes. Finalmente com os elementos que se tornariam família durante os anos seguintes, Hybrid Theory trazia um hino: «In The End». Ainda acho que será sempre uma das minhas músicas preferidas, aquela que continua gravada na memória daquela noite de maio de 2012, com o Parque da Bela Vista, em Lisboa, a cantar tão alto que nem se ouvia o Chester. Mas traz também «Papercut», «One Step Closer», «Crawling» e uma das minhas favoritas que acho que não tem todo o amor que merece: «With You».
O Hybrid Theory foi um daqueles primeiros álbuns que se tornam um fenómeno de tal forma que tudo o resto que a banda fizer será sempre comparado a ele. Quando o rock alternativo e o nu metal começam a ser mais pop-rock ou rockcomercial é sempre ao Hybrid Theory que os álbuns estão a ser comparados. Mal conseguem existir por eles próprios: existem em relação a um álbum que é inimitável e incomparável. Estamos sempre a ver isto acontecer, não é?
Vou já abrir o jogo: depois de ter dito que era preciso dar uma oportunidade à Emily Armstrong como vocalista da banda e de até ter dito que o From Zero era um álbum sólido, afastei-me da banda. Foram saindo vídeos de concertos e eu concluí que gosto do From Zero, que o álbum resulta muito bem e que a Emily é uma boa vocalista, com uma voz forte que traz impacto às letras que canta. Mas não consigo gostar de a ouvir cantar músicas antigas. Estes para mim não são os meus Linkin Park: são uns novos Linkin Park, reinventados das cinzas que o luto deixou, a fazer a música que querem fazer, mas não são os meus Linkin Park.
Senti-me mal com isto durante algum tempo, admito. Depois o Joe e o Mike disseram numa entrevista que a «Up From the Bottom» era a melhor música que a banda já tinha feito e juro que me subiram os calores e fiquei tão irritada que me passou a sensação. Não, não é a melhor música que já fizeram, mas boa tentativa. Talvez seja preciso lembrar que acho que a banda tomou uma decisão difícil e positiva ao optar por seguir em frente com novos membros depois da morte do Chester, da saída do Rob e da decisão do Brad de não atuar ao vivo. Não entro na discussão em relação a manterem ou não o nome, porque acho que seriam acusados por manterem e acusados por não manterem. Continuo a acreditar que foi uma boa decisão para aquelas pessoas, que gostam de fazer música juntas, continuar um legado que têm há praticamente trinta anos. Mas eu não quero continuar com elas.
O dia em que o Chester morreu continua a ser algo traumático para mim. Não sei se aquele som que me saiu das entranhas perturbou tanto a minha mãe como ainda me perturba, mas houve algo naquele dia que mudou para sempre a forma como sempre me agarrei aos Linkin Park. Foi o dia em que prometi que escreveria aquele livro exatamente com aqueleobjetivo, mas também foi o dia em que soube que nunca mais poderia ouvir Linkin Park da mesma forma. O meu colo estava naqueles Linkin Park. Poderiam vir outros, mas não seriam os que me davam colo.
O luto dá-nos muitas perspetivas de vida. Ainda dou por mim a pensar na minha cadela, que morreu faz hoje, dia 26 de outubro, nove anos, e penso que se calhar podia ter-lhe dado ainda mais amor, que nem todo o amor do mundo seria suficiente, mas que lhe dei todo o amor que sabia e podia dar. E depois adotámos a Lady e pensei: Será traição ir dar todo o amor que sei e posso dar a outra cadela? Mas não seria mais traição se não guardasse todo o amor que lhe dei e decidisse usar todo o resto que me sobra para dar a mais alguém?
E agora penso que não, não é traição continuar a ouvir Linkin Park, ir a concertos, acompanhá-los na sua nova vida. Não é traição eles continuarem, criarem novas músicas, juntarem-se a novas pessoas. Mas também não é traição decidir que não quero que estes Linkin Park tentem ocupar o espaço dos meus Linkin Park, que não quero ouvir as músicas de sempre nestas novas versões. O meu colo está nos meus Linkin Park e está tudo bem em não serem estes.
Quero que estes conquistem tudo o que quiserem conquistar, que cheguem a públicos diferentes, que façam a sua história, mas não quero acompanhá-los de perto. Quero observar de longe, deixar-me ficar no meu canto. Ainda penso nos Linkin Park como a minha banda preferida, mas também sei que se calhar já não é bem assim. Se calhar foram-no, formaram-me, acompanharam-me e apoiaram-me numa fase fundamental da vida. Mas agora são uma boa memória. E formarão outras memórias na nova vida, certamente. Enquanto isso acontece, eu ligo a minha coluna e deixo que estes acordes encham a casa. As palavras são familiares, o ritmo também. Estas serão sempre as minhas músicas. Às vezes seguir em frente é só reconhecer que aquele já não é o nosso lugar, mas que, enquanto foi, foi o melhor lugar do mundo.
Esta semana no daylight
Tinha em atraso algumas palavras para dedicar ao Querida Tia, o livro mais recente da Valérie Perrin. Foi a leitura de junho do desafio de autores que tenho com a Andreia e, depois da desilusão que Três me causou, foi uma boa surpresa.
Recomendação aleatória da semana
Inês Meneses n’A Beleza das Pequenas Coisas
Bem sei que a Inês Meneses é presença regular neste segmento, mas normalmente é presença como entrevistadora e não como entrevista. Na semana passada, a Inês foi a convidada do podcast do Bernardo Mendonça, A Beleza das Pequenas Coisas, e foi uma conversa longa e muito bonita. A Inês é muito generosa nas conversas que conduz, mas também o é nas conversas em que é conduzida e é um gosto enorme poder ouvi-la falar sobre o tanto que tem para dizer. São duas horas de conversa que sabem a pouco.
Coisas que iluminaram a semana
Back To The Future de regresso ao cinema
Escreverei de forma mais longa sobre isto em breve, mas o Back To The Future regressou esta semana ao cinema, 40 anos depois de ter sido lançado, e fomos ver na edição especial de terça-feira. É um filme que já vi certamente mais de uma dezena de vezes, mas ao qual gosto sempre de voltar, principalmente aos dois primeiros capítulos da trilogia. Valeu a pena, é mesmo muito bonito poder vê-lo no cinema.
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Até para a semana,




Que texto bonito. Gostei. Os Linkin Park não tiveram o impacto em mim como a ti, mas admito que não consigo "ser fã" deste novo grupo. Ela canta bem e reconheço-lhe valor e mérito, mas é diferente...talvez tenha sido porque eles apareceram nos nossos anos de formação, mas não consigo. Quando oiço e penso em Linkin Park penso nos OG e é isso que oiço. Chamem-me velha, agarrada ao passado, o que quiserem.