251. abraçar o caos.
uma semana sem rotina e ser permissiva em mudanças.
Nunca fui muito permissiva comigo quando havia mudanças. A casa tinha de ficar logo limpa e arrumada, as atividades rotineiras não podiam ficar de lado, não importava que tipo de mudança era porque havia uma única certeza: nada mais pode ser abalado por isto. Claro que, na verdade, era uma visão um tanto utópica e fui-me sempre frustrando quando, por algum motivo, os pilares da minha rotina sofriam com mudanças — de casa, de trabalho, de cenário.
Podes imaginar que dei por mim surpreendida quando cheguei ao final desta semana sem me sentir frustrada. Na segunda-feira comecei um novo trabalho e esta primeira semana abalou todos os dias as minhas rotinas. Porque na segunda-feira não sabia o que esperar, na terça estava ainda assoberbada da informação que recebi na segunda, na quarta fui para Lisboa e voltei no mesmo dia, na quinta estava exausta pela viagem e ainda tive de interromper o dia de trabalho para ir buscar o computador do trabalho e na sexta pareceu irrelevante tentar perceber se seria uma boa rotina para mim porque acordei demasiado cedo.
E com isto não li mais do que cinco páginas em toda a semana, não tentei escrever, não fui ao supermercado, não me obriguei a arrumar a casa, a inserir a minha rotina no caos ou a agir como se já estivesse neste registo há meses. Deixei estar. Encolhi os ombros quando o Storygraph passou a mostrar um zero na série de dias seguidos a ler. Comi bolachas de milho que nem me apeteciam porque não me quis obrigar a ir ao supermercado só para ter tudo como era suposto. Abracei o caos e deixei-me estar. Às vezes é preciso deixar estar.
Cheguei a sábado e percebi que não queria escrutinar aquela semana, que não me apetecia organizar o caos, que não queria ir em busca de palavras perdidas entre reuniões no Teams e serviços de entidades públicas. Deixei-me estar. Em vez de ser uma sessão de escrita passou a ser apenas uma sessão de cusquice e conversa entre amigas. Acontece-nos às vezes. Curiosamente, senti-me validada ao fim da tarde quando o Manel Cruz, numa sessão na FNAC, contou que tinha deixado de ir para férias carregado com instrumentos musicais e cadernos porque sentia que a interação humana era mais necessária do que a criação de arte (estou a parafrasear livremente).
No meu caso, sinto que a interação humana era necessária antes de tentar reagrupar o caos e tentar criar o que quer que fosse. Primeiro precisava de arrumar a cabeça em conversa e depois logo haveria tempo para o resto. Sinto que terei oportunidade de criar uma rotina diferente agora, talvez volte a sentir que tenho disponibilidade para criar arte (ou algo parecido), mas ainda não sei bem o que quero desta rotina e, por isso, também acho que tenho direito a experimentar, a passar a hora de almoço a ouvir podcasts, a apanhar sol na varanda ou a ver TikToks.
Desde novembro que aguardo o momento em que me cai a ficha de que tenho trinta anos e que já sou adulta-adulta, mas talvez o momento seja este: aquele em que aceito que tenho de ser mais permissiva comigo, que posso simplesmente dar-me tempo de processar novas informações, que não preciso de me sentir num ritmo habitual em meia dúzia de dias. Ou então não é nada disto, mas podemos fingir que sim?
Esta semana no daylight
Finalmente chegou a vez de falar sobre Piranesi, de Susanna Clarke. É daqueles livros em que acho que vale a pena arriscar sem saber muito, mas, mesmo assim, escrevi um pouco sobre ele.
Coisas que iluminaram a semana
The Release Party of a Showgirl
Haverá tempo e espaço para falar de The Life of a Showgirl, o mais recente álbum da Taylor, mas, para já, fiquemos pela Release Party. Com o pretexto de assinalar o novo álbum, a Taylor decidiu que o ideal era voltar a juntar fãs em frente a um ecrã e criou a The Release Party of a Showgirl. Com 89 minutos de duração, é uma espécie de filme de bastidores em que vemos o vídeo do single de avanço do álbum, The Fate of Ophelia, e temos pequenos trechos da Taylor a falar sobre cada música antes de os lyric videos passarem no ecrã. Pelo meio, temos como fio condutor o making of de The Fate of Ophelia.
Acho que a Release Party é um bom exemplo do marketing das experiências. Teria gostado de ver aquele conteúdo onde quer que estivesse, no entanto assistir a algo em conjunto, numa sala de cinema, é sempre uma experiência — seja um filme, um concerto, o que for. E mais do que nunca vivemos numa era em que a experiência é pedida pelos consumidores ao ponto de oferecermos experiências em vez de oferecermos só um produto. Neste caso, além da experiência, o conteúdo também me agradou e podia certamente ter sido mais extenso que teria sido bem recebido. Valeu a pena — e a experiência.
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Até para a semana,




Há fases da nossa vida que são assim e há quem aceitar a ausência de ordem e rotina. Irás reencontrar uma nova que faça sentido.
Aproveito para convidar-te à leitura do meu recente artigo sobre a Taylor Swift 🫶