250. esqueci-me de romantizar a situação
Sobre viralizar no LinkedIn, romantizar dificuldades, uma recomendação de episódio de podcast e pedir cappuccinos.
No final da minha penúltima semana de trabalho sentei-me a escrever um texto para marcar o fim daquela era. Tenho tentado usar mais o LinkedIn e, por isso, queria assinalar a saída lá — e depois colocaria nas outras redes sociais onde publico coisas. Escrevi frases, apaguei, escrevi novas frases, tentei transmitir aquilo que me ia realmente na cabeça, mostrei a uma amiga e decidi que aquela seria a versão final. Para mim, era um texto banal, em que dizia aquilo que realmente foram estes catorze meses: difíceis, desafiantes, nem sempre alinhados com o que eu queria para o futuro, mas também impulsionadores de aprendizagem, de desenrascanço. Tentei resumir catorze meses em seiscentas palavras e, no fundo, queria só deixar a ideia de que fiz o melhor que podia com aquilo que tinha. No final fiquei com este texto:
Termina hoje a minha jornada na Liga Portuguesa Contra o Cancro. Sendo totalmente honesta, não foi uma jornada nada fácil. Se houve projetos que me entusiasmaram e me permitiram ser realmente criativa (a campanha digital de divulgação do concerto solidário na Casa da Música terá sempre um lugar especial no meu coração), também houve projetos que me frustaram e me dificultaram a vida.
Por muitas vezes comparei o meu trabalho ali ao trabalho de agência — em vez de várias contas e clientes, eu tinha de trabalhar vários departamentos, cada um com gostos, pensamentos e ideais diferentes. E tudo isto passando metade do tempo a aguentar sozinha o departamento e a outra metade a tentar ensinar alguém a aguentá-lo também. E todo esse tempo a tentar fazer sempre o melhor que sei e que podia. Não sei se o mais desafiante para mim foi lidar com o ambiente super fast paced ou com a descredibilização da importância do marketing. Talvez tenha sido quando ambos se juntaram.
Não foram meses fáceis e poucos saberão quantas frustrações e quantas lágrimas resultaram dos dias maus. Mas pelo menos também celebraram comigo o crescimento de mais de 30% em seguidores nas redes sociais, o crescimento brutal (600%) de seguidores no LinkedIn, os cartazes que ficavam bonitos, as publicações que atingiam muito público de forma orgânica, os vídeos que funcionavam mesmo bem, a campanha de sensibilização que estava boa.
Há uns meses, numa espécie de espicaçamento, perguntaram-me com desdém se eu queria passar a vida a fazer postzinhos de redes sociais e cartazes e eu ri — até ficava bem a fazer carrosséis para o Instagram porque, ao contrário do que me tentaram fazer crer, funcionam, são giros e dão-me gozo, mas nunca quis ser faz-tudo-do-marketing, muito menos do marketing tradicional. Do digital ainda podia fingir que sim, mas do tradicional? Quando fiz a pós-graduação em marketing digital sabia perfeitamente a área em que queria trabalhar, aquela que também me aproximava mais da escrita: conteúdo. Vou finalmente deixar de ser canivete suíço e fingir que sei quais são os diferentes tipos de papel (aparentemente há vários e têm nomes), que percebo imenso de materiais de merchandising (não, amigos, não faço ideia do que se pode oferecer além de tote bags, bloco de notas e canetas) e que além de roll-up e k-line conheço as designações de materiais de marketing tradicional (é que nem sequer sou designer para saber como se fazem, quanto mais o que são). Obrigada, Chat GPT, foste um excelente aliado nestas dúvidas existenciais de quem não é designer, não é marketer tradicional e não sabe usar o Affinitty Designer.
Levo destes meses a expressão feliz e agradecida com que fui sempre tratada pelas senhoras do Centro de Dia, que até me agradeciam quando a única coisa que eu tinha feito era tirar umas fotos. Sei que parece profundamente egoísta, mas as idas ao IPO e o contacto com as doentes foram muitas vezes aquilo que me deu alento em tempos difíceis. Levo também os amigos que fiz, amigos mesmo, que me viram nos piores dias de trabalho e nos melhores. Admito que vou ter saudades da regueifa ao pequeno-almoço. Levo alguns ensinamentos importantes, claro, uns que solidificaram e melhoraram a profissional que sou e outros que fazem parte do manual de sobrevivência de qualquer local de trabalho.
Agora vou aprender outras coisas, outras formas de usar aquilo que sempre me moveu, desde que comecei a escrever ficção aos 12 anos, aquilo que me apaixona realmente: as palavras. Saio daqui melhor pessoa e profissional do que quando cheguei, tenho a certeza. Obrigada.
Esqueci-me de romantizar a situação
Apesar de ter várias conexões nesta rede social, não costumo ter muitas reações em publicações (porque também não sou regular) e por isso não esperava de repente ter uma publicação a chegar a tantas pessoas que nem me seguem. Confesso que publicações virais me assustam um bocadinho, mas, mais do que isso, não me fazia sentido que este texto fosse interpretado como fora do comum ou mais honesto do que o normal (ou do que o suposto). Só depois percebi: esqueci-me de romantizar a situação. Devia ter falado só das coisas boas? Fazia uma lista de 10 coisas que aprendi? Dizia só “deixei de trabalhar aqui hoje, obrigada e bom dia”?
Na era em que as dificuldades passaram a chamar-se desafios e em que tentamos constantemente mostrar uma positividade laboral um pouco tóxica, se calhar realmente eu dizer que não tive uma tarefa fácil naquele departamento de marketing é ir contra a corrente. Mas para mim foi só uma espécie de grito de felicidade de sobrevivi fora da zona de conforto durante meses, havia imensas coisas que não sabia e tantas outras que não tinha como saber.
Eu sabia que ia ser difícil, atenção. Na entrevista explicaram-me que ia ficar sozinha no departamento até abrirem candidaturas para estágios do IEFP (o que, na altura, aconteceria em data incerta). Já tinha trabalhado em equipas pequenas, mas nunca tinha sido uma equipa. Uma pessoa sozinha é uma equipa? Não me parecia. Estava há meses desempregada, estava cada vez mais inclinada para desistir de sequer tentar candidatar-me para a minha área e mais do que provar aos outros queria provar a mim mesma que era capaz. E fui capaz. Entrei a meio de julho e o estágio só começou no final de fevereiro.
Lembro-me daqueles primeiros dias e acho que toda a gente percebia o quanto eu estava assustada: um gabinete que estava um caos, a palavra-passe do computador estava errada, de repente tenho dois fornecedores a ligar a pedir respostas e eu nem sabia do que estavam a falar. A resposta dos superiores? Resolva. E eu resolvi. Não sei como, porque ouvia o que cada um me dizia e só pensava que a qualquer momento ia fugir dali. Ainda hoje acho que consegui solucionar o problema porque ambos tiveram pena do quanto eu estava perdida. Mas percebi logo ali que a única forma de conseguir prosperar seria sempre dar o meu melhor para aprender como lidar com pessoas tão diferentes, algumas delas com egos particularmente sensíveis — tal como há em qualquer lugar.
Um mês e meio depois de ter entrado fui sem apoio para uma auditoria. Tudo me parecia direito e pelo que conseguia ver com a consultora tudo estaria bem, mas e se não estivesse? Só pensava que não era eu quem devia estar ali porque eu não saberia dar respostas sobre um projeto já terminado há meses.
E sim, tive sorte. Tive sorte porque fui acolhida por muitos — não por todos, isso é uma utopia — e consegui mostrar competência ao ponto de haver sempre equipas que facilmente confiavam em mim para me deixar tentar ser o mais criativa possível. Também tive sorte porque, de facto, me esforcei e tentei ser sempre o mais genuína e fiel a mim mesma possível. Só não romantizei nada.
Aprender a fazer malabarismo
Escrevi assim:
Não sei se o mais desafiante para mim foi lidar com o ambiente super fast paced ou com a descredibilização da importância do marketing.
Portanto os meus dias eram passados a fazer cartazes para caminhadas, eventos, palestras, cursos, conferências. Tinha também de preparar publicações para redes sociais, fosse uma imagem, um carrossel ou um vídeo, com o respetivo copy. Manter o site atualizado, entre calendário, notícias, páginas, formulários. Fazer relatórios de redes sociais. Vi a página do LinkedIn com 36 seguidores e decidi que o meu objetivo era fazer crescer aquela página. Saí com mais de 2600 seguidores. Tinha também de fazer os banners para o site, para as páginas, os materiais gráficos para cursos, para eventos, mais os MUPIs, as diversas variações necessárias para uma imagem. E preparar as campanhas de e-mail marketing, com imagens e textos bonitos. Preparar e escrever a newsletter interna mensal. Contactar fornecedores para pedir orçamentos para materiais de marketing ou merchandising do meu departamento ou de outros, lidar com o processo. Acompanhar eventos. Tirar fotografias. Fazer stories. De quatro em quatro meses tratar da revista, com recolha de notícias e textos, escrita e reescrita, problemas de formatação, de fotografias com pouca qualidade, de prazos. E ainda vinham os kits de sócio, que era preciso arrumar, os cartões para imprimir, os envios para preparar. Mais as campanhas para divulgar os eventos maiores, com publicações específicas, materiais específicos. E depois há tanta coisa: são cartões para casamentos, acrílicos para funerais, pins, crachás, sacos de pano, t-shirts. É melhor não verificar a lista de tarefas que nunca mais acaba, não é? E obviamente é tudo para ontem. Não consegues dar um jeitinho hoje? Mas claro que o marketing está a falhar. Claro que a comunicação não pode estar a ser bem feita. Claro que o marketing é o culpado. Claro que o marketing devia fazer isto, não o marketing não pode fazer aquilo, claro que o marketing devia fazer as redes sociais assim, claro que as redes sociais não se fazem assim.
Estou exausta, principalmente porque ser canivete suíço não é a melhor forma de prosperar — nem na carreira nem nas criações que esperam de nós. Mas, de qualquer forma, malabarismo é algo que aprendemos a fazer. A questão é que eu não queria ser malabarista a este nível. Não queria ser a assistente de marketing que tinha de agir como coordenadora de departamento quando era preciso fazer relatórios e planos de atividades, não queria ser a designer e a copywriter ao mesmo tempo, até porque por mais que domine o Canva há limitações para quem simplesmente nunca tentou ser designer. Por exemplo, aprendi que há vários tipos de papel e que têm nomes, aprendi que para impressão os trabalhos devem ir com bleed e que é diferente escolher uma cor para um material digital e para um material impresso. Eu sabia lá. Passei meses a fazer perguntas ao Chat GPT.
Prosperar em ambientes inóspitos
Claro que há coisas positivas nestes ambientes acelerados, principalmente se os juntarmos a algum conservadorismo típico de equipas com pouca rotatividade e de instituições com alguma antiguidade nos cargos superiores: quando prosperamos prosperamos mesmo. Quando acertamos num cartaz à primeira, quando conseguimos modernizar imagens, quando conseguimos fazer coisas bonitas, quando nos deixam criar uma série de publicações descontraídas para promover um concerto solidário, quando percebemos que aumentámos os seguidores nas redes sociais (desde 24% no Instagram a 700% no LinkedIn), quando promovemos realmente literacia nas redes sociais.
É preciso perceber que há sempre dois lados: e na minha experiência aqui o lado para o qual a balança pendia mais vezes era o da dificuldade e nem sempre era dificuldade prática, mas sim a dificuldade em jogar em departamentos diferentes, em que cada um quer algo diferente, cada um tem ideias diferentes e todos consideram o marketing algo tão simples que todos percebem da área — às vezes senti que queriam dizer-me que todos percebiam da área menos eu, que a estudei.
Acho que temos receio de chamar as dificuldades pelo nome porque tememos que isso faça de nós também difíceis ou pior: demasiado honestos para o nosso bem. Mas qual é o problema real de dizer que tivemos experiências difíceis? Não significa que não tenham sido enriquecedoras, que não nos tenham ensinado, que não nos tenham tornado melhores profissionais. Significa, isso sim, que não estamos a mascarar sentimentos e que estamos a tentar encarar o lado mau com a mesma leveza com que encaramos o lado bom. Afinal, não fazem os dois parte? ****
Não sabemos encarar o fracasso?
Ando há pouco mais de um ano com um episódio do [IN]Pertinente guardado porque toca num assunto particularmente interessante: os falhanços. É um dos primeiros episódios episódios do podcast, na verdade, e os falhanços são aqui encarados maioritariamente (mas não exclusivamente) numa perspetiva científica. O que me leva à questão anterior: os falhanços não fazem também parte da vida? Qual é a necessidade de realçar sempre o lado positivo quando falamos de um fracasso ou de uma dificuldade?
Eu sei: é mais apelativo fazer parecer a nossa relva mais verde. Mas quando me pus a pensar em toda esta situação não consegui parar de pensar neste episódio. De certa forma, sinto que se ligam porque falar de falhanços e de dificuldades é tão raro que quando o fazemos parece que estamos a fazer algo revolucionário.
No caso do LinkedIn ainda traz outra camada: é que eu só disse que foi difícil, não transformei aquilo num texto motivacional, não partilhei listas com aprendizagens ou clichês, não tentei sequer que aquilo fosse mais do que é: a constatação de um facto. Aparentemente precisamos mais disto, de abrir o jogo e chamar as coisas pelos nomes.
Aprendi muito a ser assistente de marketing na LPCC, mas se isto fosse uma publicação de LinkedIn diria que estas foram as principais:
Podes ter todas as funções do mundo juntas numa só e ter a mesma responsabilidade de alguém superior, mas se o teu cargo só diz assistente de marketing vai sempre haver alguém que faça questão de te lembrar isso, que és sóassistente de marketing e às vezes vai mesmo parecer que ser só assistente de marketing é algo mau. Não é.
Um trabalho ter dificuldades e não ser perfeito diz tanto sobre esse trabalho quanto eu dizer que um ser humano não é perfeito e comete erros — é uma simples constatação de um facto.
Lamento, mas o salário é uma parte fundamental de qualquer trabalho, ainda mais na economia em que vivemos, com as rendas que pagamos (e que não me parecem nada moderadas). Não é o único peso, mas é fundamental.
A evolução profissional é parte fundamental de qualquer trabalho também. E evoluir não é de repente ter de listar todas as tarefas que executamos, não é estar constantemente a travar as mesmas batalhas, não é certamente ganhar responsabilidades sem que isso signifique ganhar mais — em salário, em categorias profissionais, no que for. Às vezes sentimos simplesmente que parámos de evoluir e não devíamos ser vistos como o anti-Cristo por tentarmos evoluir de outras formas.
Nunca vamos agradar a todos, nunca vamos fazer tudo bem, nunca vamos ser perfeitos, nunca vamos ter um trabalho perfeito, mas vamos fazer bons amigos, vamos divertir-nos, vamos aprender e vamos sentir que valeu a pena. E isto é o mais importante.
Posto tudo isto (e se chegaste aqui: obrigada!), nunca me vão ver romantizar as dificuldades com que lidei nos trabalhos que tive, as horas extra que tive de fazer para dar resposta a tudo, o cansaço extremo. Mas podem ver-me tentar romantizar a evolução, os dias melhores, a sensação de que crescimento. Tudo o resto é barulho de fundo. E agora até mudei a sintonia.
Esta semana no daylight
Setembro terminou e, com ele, vieram as coisas que iluminaram o mês — e como foi bom este mês!
Foi preciso lê-lo duas vezes em menos de meio ano, mas finalmente tentei escrever sobre um dos meus livros favoritos do ano: Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves.
A viver nas páginas de…
Tenho de admitir que as minhas leituras andam caóticas porque decidi trazer três livros físicos para esta semana que passei em casa da minha mãe e achei que ia ser uma semana de muita leitura, o suficiente para ler esses livros e poder deixá-los cá, mas também para terminar O Amor Nos Tempos de Cólera. Acontece que acabei por me dedicar apenas aos três livros e não terminei ainda o romance (incrível!) do García Márquez. Aqui trabalhamos com a realidade, é o que é.
Recomendação aleatória da semana
Recordando Melville, o mais recente episódio de O Amor é
Já sabes que O Amor É é um dos meus podcasts de eleição e, por isso, facilmente tenho recomendações vindas das conversas entre a Inês Meneses e o Júlio Machado Vaz. Neste caso, o episódio começa por ser uma evocação de Herman Melville, autor de Moby Dick, mas rapidamente se torna numa conversa sobre amizade. Gosto especialmente de como um ponto de partida nas conversas entre estes dois facilmente evoluiu para uma conversa profunda sobre um tema, por vezes completamente diferente, e, neste caso, Melville evoluiu para uma conversa mesmo bonita. Vale a pena ouvir.
Coisas que iluminaram a semana
Passei a semana de férias, embora ligeiramente inquieta, por isso aproveitei para fazer uma sessão de depilação a laser, uma massagem bem necessária, cortar o cabelo e ainda fazer as sobrancelhas. Todo um ritual de mudança de estação, no fundo. Felizmente, também consegui aproveitar para dormir sestas à tarde com a Lady, fazer uma pequena roadtrip até ao Douro com a minha mãe e irritar-me na internet tal como acontece sempre que a Taylor Swift lança um álbum, pelo menos desde 2012 (o lançamento mais antigo que me lembro de acompanhar). Uma boa semana.
Algo extra para terminar
Em breve terei muito a falar sobre comercialização da arte e em privado até tenho tido várias conversas sobre a proliferação de Substacks pagos, por isso não sei se há quem tenha visto isto chegar ou não, mas decidi finalmente dar uso à conta que tenho há anos no Buy Me a Coffee.
Se não conheces, esta plataforma permite pagar a um criador de conteúdo um valor esporadicamente, sem esperar receber algo em troca. Não é uma subscrição, mas permite-te pagar um café, por assim dizer, e dizer àquele criador que valorizas aquilo que ele faz.
Não acho que vá ter muitos cappuccinos pagos, como lhes chamei, mas também não pretendo criar uma subscrição de Substack ou de Patreon e acho que esta pode ser a forma mais fácil de alguém contribuir para o meu trabalho.
Gostas do meu trabalho? Paga-me um cappuccino: buymeacoffee.com/sofiacostalima
Até para a semana,




Ora nem mais "Lamento, mas o salário é uma parte fundamental de qualquer trabalho, ainda mais na economia em que vivemos, com as rendas que pagamos"