249. «viver é a minha razão de escrever»
Normalmente o escritor diz escrever é a minha razão de viver e eu gosto de dizer que viver é a minha razão de escrever.
António Alçada Baptista (ouvido aqui)
Sinto a escrita como um organismo vivo que se vai metamorfoseando de acordo com o tempo e o lugar. Intensa e desejosa de vivências na adolescência, intensa e confusa na universidade, ansiosa e triste nos últimos meses de Lisboa, sem esperança e assustada durante a pandemia. Nos primeiros anos, parecia ser realmente a razão de viver. Afinal, que mais importava na vida além de escrever? Depois as coisas foram mudando, fomos crescendo, perdemos contacto com algumas pessoas, ganhámos com outras. Lemos outros livros, ouvimos outras músicas, conhecemos outros lugares. Deixou de ser a escrita a sustentar a vida e passou a ser a vida a sustentar a escrita. Setembro foi um daqueles meses em que a vida deu muitas razões para escrever, sinto que se estiver realmente atenta a vida dá cada vez mais razões para escrever.
No ano passado, o Expresso fez um podcast chamado Retratos de Abril com perfis curtos de 25 personalidades que, em 1974, tiveram algum tipo de impacto. Uma dessas personalidades foi António Alçada Baptista, escritor e advogado da Covilhã. A frase que destaco no início foi-me ficando na cabeça e parecia atrair constantemente conversas com temas semelhantes. A necessidade de viver, de conversar, de ver coisas vinha sempre à baila e nós ali a discutir escrita como se fôssemos grandes entendidos. Se calhar somos.
Este mês, como dizia, foi daqueles em que a vida sustentou a escrita. Aconteceu muito e em tantas áreas da vida que a única forma de as processar totalmente é escrever sobre elas, mais do que falar sobre elas. Mais do que nunca, tenho sentido que a minha escrita já não se sustenta apenas nos moldes iniciais de ter ideias e ler muito. Hoje, há tanto mais que dou à escrita e, felizmente, não espero que ela me devolva o que lhe dou.
Passei o mês a viver à pressa, como se não restasse muito tempo para tudo o que tinha de fazer, sabendo que assim que parasse conseguiria processar a oferta de trabalho, deixar o meu trabalho de assistente de marketing faz-tudo-até-ser-coordenadora-de-departamento, aproveitar cada momento com os colegas que se tornaram amigos e de quem vou ter saudades, dúvidas existenciais que invadiram outras áreas da minha vida, a necessidade de ser adulta e tratar de burocracias chatas tipo levar o carro ao mecânico. Setembro foi tão cheio de vida que me parecesse impossível que há três semanas ainda estivesse na Feira do Livro.
Temos falado muito de como a escrita ganha com aquilo que vivemos e há alturas, como esta, em que fico particularmente curiosa em descobrir o que irá ela ganhar. Profissionalmente, vai ganhar novas aprendizagens, novas palavras, novos conhecimentos. Pessoalmente, não sei. Mas temos falado muito sobre a necessidade de vida para escrever, seja o que for que escrevemos, e sinto que preciso de pôr em palavras o que tenho vivido.
Esta semana no daylight
Esta semana escrevi sobre Outonecer, o livro que Júlio Machado Vaz publicou no início do verão.
Coisas que iluminaram a semana
Numa semana particularmente bonita, tive direito a mimos de colegas e, por isso, além da bola de carne maravilhosa, acabada de sair do forno, ainda fui conhecer uma nova francesinha, muito muito boa. Dizem que é nos momentos-chave que percebemos quem gosta de nós e nisso não tenho de me preocupar — sei bem quem são essas pessoas.
Até para a semana,



