247. a era das possibilidades
Uma reflexão sobre conteúdos longos e sobre afastamento.
Vivemos numa era complexa: por um lado, vendem-se mais livros; por outro, parece que a literacia está pior e que os enunciados mais simples não são compreendidos. Por um lado, insistem em dizer-nos que já ninguém quer ler textos longos; por outro, há cada vez mais publicações no Substack — e cada vez mais publicações com versões pagas. Por um lado, há cada vez mais pessoas a falar de livros; por outro, há cada vez menos pessoas a falar realmente de literatura. No meio de tudo isto e de tanto mais fica difícil não nos questionarmos: em que lado queremos estar? Que conteúdo queremos fazer? Que conteúdo queremos ver?
Uma coisa curta, que ninguém quer ler coisas muito longas
Durante uns meses travei uma luta no trabalho sobre conteúdos longos e carrosséis. Um superior insistia que ninguém via carrosséis, que uma landing page devia ser o mais concisa possível. Ao mesmo tempo eu via o resultado que os carrosséis explicativos tinham nas redes sociais e via plataformas de conteúdo longo crescer a olhos vistos. Afinal quem tem razão? Acho que ambos. Há uma parte de nós que está tão saturada de conteúdos que já não tem predisposição para mais do que um scroll sem atenção. Mas também há uma parte que está desejosa de encontrar conteúdos que nos interessem, que nos dêem respostas ou que nos deixem com mais perguntas, que simplesmente nos prendam por um bocado.
Cada vez mais acredito que o problema não é o tamanho do conteúdo: é a predisposição de quem o vê. Claro que às vezes só queremos vídeos de dez segundos e posts que só exigem que pensemos se é giro ou não. Mas se um tema nos interessar nunca vão chegar dez segundos para satisfazer a nossa curiosidade, para nos ajudar a compreender melhor aquilo de que estamos a falar.
O que me trouxe um debate interno quando, há umas semanas, decidi estabelecer um novo calendário de publicações para os meus projetos: se ando saturada de conteúdos literários que não me acrescentam qualquer valor, como é que vou eu própria continuar a escrever sobre livros? Se sou só uma jovem adulta a viver uma vida perfeitamente normal como é que vou escrever todas as semanas com a mesma profundidade ou com novidade?
Ler criticamente, listas e mais listas e uma necessidade de afastamento
Cruzei-me com um vídeo da The Book Leo há uns dias sobre como ler criticamente na era da má literacia mediática e senti-me validada em muitas questões. Ainda esta semana conversava sobre isto num jantar com amigos. Há um desafio cada vez maior em fazer uma espécie de curadoria naquilo que seguimos na internet porque também há cada vez mais superficialidade no que é partilhado e para quem quer ir um bocadinho mais além é preciso quase partir numa viagem longa para descobrir onde estão as pessoas que nos interessa seguir para que nos possam acrescentar algo.
Vivo um bocadinho nesta contradição de querer escrever mais detalhadamente sobre os livros que leio, sabendo que há livros sobre os quais na verdade não me apetece pensar durante muito tempo. Interessa-me cada vez mais ver análises literárias, mas também me interessa cada vez menos seguir criadores de conteúdos literários. Quero registar todos os livros que vou lendo, mas acho mesmo que não têm todos interesse em serem registados individualmente. Interessa-me muito a literatura enquanto meio de aprendizagem e de desenvolvimento, na forma de livros que não são só entretenimento, mas não quero perder em nenhum momento a capacidade de ler livros só por entretenimento. Também é de contradições que somos feitos, não é?
Percebi que queria mesmo registar todos os livros que leio, mas que não quero fazê-lo individualmente porque não quero realmente dedicar-me a analisar criticamente tudo o que leio de uma forma expansiva. No entanto, quero mesmo alongar-me em alguns livros, sentir que tenho algo mais a dizer sobre os livros que levantam mais questões ou que me dizem mais. Cheguei a consenso comigo mesma e decidi que mensalmente registaria todas as leituras e faria um comentário breve sobre cada uma, dando lugar a que os livros mais desafiantes pudessem ter o seu espaço.
Claro que isto é uma questão que vem de há algum tempo — desde que comecei a afastar-me de conteúdos dentro do tema em que eu própria crio conteúdos. Já não me apetece fazer hauls e não me apetece ver os hauls de outras pessoas. Já não me apetece pensar em termos de listas temáticas (livros para o outono, livros para escritores, etc.) se não for para me alongar sobre esses temas então não me apetece ver listas temáticas se elas não passarem de listas. Falem-me dos temas e incluam a lista pelo meio, dêem-me conteúdo real, façam-me pensar.
Quando comecei a notar este afastamento perante as formas de conteúdo a que assistia percebi que quero cada vez mais estes conteúdos mais longos, mais pensados, mais propositados. Sim, claro que quero a parte mais descontraída e simples, mas quero que seja apenas uma abordagem simplificada de algo que poderei ver desenvolvido mais tarde. Quase como se o conteúdo curto das redes sociais servisse de snippet de conteúdos longos que aquele criador irá criar para plataformas como o Youtube, podcasts ou blogs.
A era das possibilidades
Mais do que qualquer outra era, acho que vivemos agora na era das possibilidades. Há tanta coisa a ser criada que facilmente encontramos — quer queiramos quer não — conteúdos que respondem àquilo que queremos ler, ver ou ouvir. E quando não encontramos conseguimos facilmente produzir aquilo que gostávamos de ler, ver ou ouvir.
Falava disto há uns dias, sobre o quanto parece difícil criar algo original hoje em dia porque já existem milhares de opções dentro de cada tema, mas aquelas opções não incluem a tua visão, não apagam a tua personalidade e aquilo que queres partilhar com o mundo. É desafiante tanto para o bom como para o mau, mas sobretudo exige cada vez mais que consigamos transmitir uma parte do que somos porque o tema pode atrair, mas é a personalidade que nos faz ficar.
É por isso que eu posso não escrever nada que não saibas já, mas tu continuas a ler: porque, no fundo, te interessa mais a perspetiva de uma miúda normal, com uma vida normal, do que a perspetiva de alguém com quem não consegues identificar-te. E acho que neste jogo de criadores e seguidores vamos aprendendo, ao longo do tempo, a procurar quem nos transmite algum tipo de identificação, quem nos faz sentir proximidade por algum motivo. Não sei para que era caminhamos, mas acho que descobriremos enquanto criamos.
Esta semana no daylight
Regressando à programação habitual, esta semana dediquei-me a escrever um resumo daquilo que foram os meus dias de Feira do Livro do Porto: registei as sessões a que assisti, falei do que comprei e agora acho que estou pronta para me despedir da Feira até 2026.
A viver nas páginas de…
A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera
Esperávamos, desejávamos, conseguimos: vitória! Finalmente estou a ler A Insustentável Leveza do Ser!
De há seis anos para cá, ganhei o hábito de me oferecer livros no meu aniversário. Aproveito os habituais vales de aniversário que as lojas oferecem e compro sempre pelo menos um livro. A Insustentável Leveza do Ser foi o livro que me ofereci em 2020. Claro que fui adiando a leitura, como dá para perceber, mas, agora que ando mais empenhada em limpara lista de livros por ler, finalmente chegou a vez dele.
Há livros aos quais já chegamos com uma série de expectativas ou ideias soltas e este é um deles. Publicado originalmente em 1984, A Insustentável Leveza do Ser é já considerado um clássico contemporâneo, mas aquilo que me fez ir adiando a leitura foi, na verdade, a noção de que este livro gira à volta de reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo. Agora que parei de fugir dele, cá estou a navegar as páginas deste romance.
Para já, deixo a sinopse para quem não conhecer o livro:
A Insustentável Leveza do Ser é seguramente um dos romances míticos do século XX, uma daquelas obras raras que alteram o modo como toda uma geração observa o mundo que a rodeia.
Adaptado ao cinema por Philip Kaufman, este é um livro onde se olha, com um olhar umas vezes melancólico e conformado, outras vezes amargo e revoltado, para o destino de um país, para o destino de um continente, para o destino de uma civilização. E poucas vezes se terá tão magistralmente representado a ligação existente entre a aventura individual e coletiva…
Justapondo lugares distantes geograficamente, reflexões brilhantes e uma variedade de estilos, este magnífico romance representa o auge daquele que é, verdadeiramente, um dos maiores escritores de sempre.
Recomendação aleatória da semana
Canto da Sereia, a newsletter da Raquel
Andava há algum tempo para recomendar uma das newsletters da Raquel, mas admito que esperei porque claramente quis puxar a brasa à minha sardinha e partilhar o Canto da Sereia quando saísse a minha participação na rubrica shelfie.
Conheço a Raquel há uns anos, do tempo dos blogs, e, por isso, encontrá-la pelo Substack foi algo que me deixou logo muito feliz porque todos iam poder testemunhar a escrita maravilhosa dela. Mais feliz fiquei quando percebi que ela estava realmente a aproveitar muito bem a plataforma e a escrever muito e com muita qualidade.
Há uns tempos, a Raquel convidou-me a participar na shelfie, uma rubrica para conhecer as pessoas enquanto leitoras, e disse logo que sim. O resultado saiu esta semana. Mas até podia nem ter saído que eu ia continuar a ficar feliz sempre que me chega uma notificação de nova publicação da Raquel.
Coisas que iluminaram a semana
Tenho de admitir que esta semana foi cheia de emoções e cheguei a sexta-feira mentalmente exausta, a precisar mesmo de dormir e de parar para processar os acontecimentos da semana. No domingo, terminou a Feira do Livro do Porto, com sessão de autógrafos do Hugo Gonçalves e concerto do Sérgio Godinho. Já que tínhamos de esperar, aproveitámos para jantar por lá e dediquei-me à francesinha do Madureira’s. Sei que o local não é o mais propício à cozinha, mas achei que o molho precisava de apurar um pouco mais, porque ainda se sentia muito o cheiro e o sabor do álcool, e a sandes não era nada de extraordinário, mas cumpria o propósito.
Esta semana entreguei a carta de demissão para em outubro começar um novo trabalho (algo sobre o qual podemos falar noutra altura). Ora, esta decisão motivou muitas conversas e vou focar-me apenas nas que importam, naquelas que mostram que há pessoas que valem a pena e nas que não tentam despejar negatividade numa decisão positiva.
Até para a semana,





Acho que na verdade é isso mesmo - como "consumidora" (custa-me imenso usar esta palavra aqui) preciso de uma ligação, de umângulo pessoal para me segurar, não basta o texto ser interessante, bem-escrito, bem-investigado ou sobre um tema que me interesse. Depois de criada essa ligação pessoal, algumas pessoas até podem escrever sobre como congelar souflé de pescada.
Subscrevo cada palavra. Também me ando a virar mais para os conteúdo longos novamente, tanto para consumir como para criar. Mas às vezes só me apetece algo que seja giro e não me faça pensar. Estamos na era das possibilidades e podemos ter e ser isso tudo, mas também estamos na era das caixinhas e às fica difícil escolhermos o que queremos fazer. Parece que temos de nos encaixar sempre nalgum sítio, quando na verdade só temos de encaixar o que criamos naquilo que somos.