243. podia ser uma fotografia bonita do pôr-do-sol…
mas é céu e terra de fogo.
Tinha acabado de me sentar para escrever esta edição da newsletter quando a minha mãe me ligou. Era sábado, dia 9 de agosto, e eu tinha pensado no tema durante a manhã — ia aproveitar a proximidade com o Dia Mundial da Fotografia, que se comemora a 19 de agosto, e escrever sobre estes álbuns de memórias. Ela tinha-me enviado uma fotografia dez minutos antes. Uma coluna de fumo negro que se avistava no lado sul, sem se perceber exatamente o local de origem, mas tão parecida a tantas outras que, ao longo da vida, fomos vendo surgir em Freches e que acabavam por chegar a Fiães. Desta vez demorou dez minutos. Dez minutos depois da fotografia da minha mãe o fogo tinha subido a serra toda e já tinha destruído uma quinta. Essa foi a segunda fotografia que a minha mãe me mandou nessa tarde. Minutos depois estava a fugir do fogo, um fogo que fazia tanto barulho e atravessava o mato com a pressa de quem tem um lugar onde chegar e já está atrasado — ainda estamos a tentar perceber onde quer chegar.
Agarramo-nos às fotografias da mesma forma que nos agarramos às memórias. Momentos da nossa vida cristalizados numa imagem que perdurará. Agora, é às imagens que nos agarramos para chorar o que perdemos. Os pinhais, a paisagem pintada de verde e dourado. Não sabemos daqui a quantos anos voltaremos a ter uma paisagem assim. Agora, a câmara capta a escuridão sem precisar de ajustar as sombras. Tudo é negro. O que não ardeu secou. Os pontos verdes são agora uma minoria. Irão também eles ser alvos de discriminação?
Costumo dizer que vir para casa da minha mãe é estar no sossego, rodeada apenas de verde e ar puro. A vista verde, com o recorte certo para permitir vista para a Serra da Estrela. Hoje é estar rodeada de nada. A vista divide-se entre o preto do que ardeu e o castanho do que secou. Até aqui a vista é assim… que fotografias trágicas.
Quando a minha mãe ligou soube que não ia conseguir fazer mais nada nesse dia. A aflição de ter de fugir e torcer para ser mais rápida do que as chamas, a minha insistência para que ela fosse regar tudo e fechasse a Lady em casa, protegida. Houve algo, naquele momento, que me disse que as imagens que estava a ver iam ser piores do que qualquer incêndio já visto aqui. Mas não contava com a aflição de ver a minha mãe segura, muito menos quando o fogo se começou a aproximar de casa — ficou a menos de cinco metros.
Estive a duzentos quilómetros a ver a minha terra arder pela televisão, ainda estamos a ver o concelho arder, a região. Ainda assim, o impacto de chegar e os tons de terra e verde terem dado lugar a queimado e ver a distância curta a que tudo estava de casa…
Este fim-de-semana fartei-me de tirar fotografias, mas estas são as memórias que gostava de nunca ter. Às vezes as fotografias também registam essas memórias, as que trazem alguma dor, alguma tristeza. Essas costumam ganhar prémios. Deve ser por isso que quanto penso nos incêndios de Pedrógão, em 2017, as imagens que me vêm à cabeça são as fotografias do João Porfírio.
Aqui há dias, ouvia alguém dizer na televisão que “no interior estão habituados a incêndios todos os anos” e talvez seja verdade, embora me soe a altivez de quem acha que interior e inferior são a mesma palavra. Ainda assim, por muito que possamos estar habituados a incêndios, acho que não estamos — e espero que nunca venhamos a estar — habituados a este nível de destruição. Porque o verde do pasto volta rápido, por algum motivo os pastores costumavam deitar o fogo às pastagens secas do verão, mas os pinheiros, os castanheiros… esses não voltam assim.
Esta semana no daylight
Foi semana de regresso, depois de um mês de pausa, e entre blog e Substack as novidades foram:
Marquei o regresso com um texto sobre fazer as pazes com o calendário, algo em que tenho andado a trabalhar para esta nova era.
Avançamos no desafio de autores para 2025 e, desta vez, escrevi sobre A Maldição, o segundo livro da saga que o Lourenço Seruya criou.
Apesar de agosto ir a meio, não podiam faltar as coisas que iluminaram julho, claro, um mês que foi bem mais longo do que o previsto.
Além disso, aqui pelo Substack relancei a rubrica mensal com um novo twist, para quem gosta de saber um bocadinho do que aconteceu no mês e um bocadinho dos livros que fizeram o mês.
A viver nas páginas de…
Inferno, de Dan Brown
Até a escolher leituras é preciso ter humor… que é como quem diz: vim passar o fim-de-semana prolongado à zona que está a viver um inferno e achei por bem voltar à saga Robert Langdon para ler Inferno.
Na verdade, tenho este ebook em espera (vergonhosamente) desde 2020. Fui adiando porque não havia meios de o Dan Brown publicar um novo volume da saga e, assim, ainda tinha dois livros por ler, estava tudo mais equilibrado. Agora vem aí um livro novo e eu achei que era melhor dar corda aos sapatos e ir resgatar este… até porque a TBR precisa de ser abatida.
A sinopse de Inferno diz o seguinte:
«Procura e encontrarás.» É com o eco destas palavras na cabeça que Robert Langdon, o reputado simbologista de Harvard, acorda numa cama de hospital sem se conseguir lembrar de onde está ou de como ali chegou. Também não sabe explicar a origem de certo objeto macabro encontrado escondido entre os seus pertences. Uma ameaça contra a sua vida irá lançar Langdon e uma jovem médica, Sienna Brooks, numa corrida alucinante pela cidade de Florença. A única coisa que os pode salvar das garras dos desconhecidos que os perseguem é o conhecimento que Langdon tem das passagens ocultas e dos segredos antigos que se escondem por detrás das fachadas históricas.
Tendo como guia apenas alguns versos do Inferno*, a obra-prima de Dante, épica e negra, veem-se obrigados a decifrar uma sequência de códigos encerrados em alguns dos artefactos mais célebres da Renascença - esculturas, quadros, edifícios -, de modo a encontrarem a solução de um enigma que pode, ou não, ajudá-los a salvar o mundo de uma ameaça terrível… Passado num cenário extraordinário, inspirado por um dos mais funestos clássicos da literatura, Inferno é o romance mais emocionante e provocador que Dan Brown já escreveu, uma corrida contra o tempo de cortar a respiração, que vai prender o leitor desde a primeira página até fechar o livro no final.*
Coisas que iluminaram a semana
Uma semana particularmente triste conseguiu, ainda assim, trazer momentos bonitos e entusiasmantes… que é como quem diz: a Taylor anunciou um novo álbum, The Life of a Showgirl, que sai dia 3 de outubro. Obviamente, já comprei todas as variantes possíveis, já criei teorias e já enveredei pelo maravilhoso mundo de conspiração swiftie. Tudo isto sem um único single.
Tive direito a muitos mimos da Lady, que atenuam sempre tudo o que de mau há no mundo. Não pudemos cumprir a roadtrip que tínhamos planeado nem assistir a um dos concertos mais aguardado, mas fui com a minha mãe ver o Miguel Araújo ao vivo e acho que foi o meu concerto preferido dele (foi a terceira vez que o vi).
Por fim, falemos de comida: encontrei, de forma totalmente aleatória, o meu snack de queijo preferido no Mini Preço/Auchan: gouda rings! Vou finalmente deixar o luto por terem tido um regresso tão curto ao Burger King.
Até para a semana,





